quarta-feira, 26 de julho de 2017

A IGREJA E A PÓS-MODERNIDADE



                                                                                                    Pastor Flávio Neres



Vivemos no mundo da “globalização”, no mundo da pós-modernidade, e isso tem trazido uma mudança de conceitos, valores e comportamentos para a humanidade. Podemos afirmar que os valores da pós-modernidade têm confrontado e até mesmo influenciado a igreja, já que a pós-modernidade trouxe consigo a destruição dos referenciais que vinham norteando o pensamento estabelecido até então. Como exemplo desta transformação podemos ver que o pensamento pós-moderno afirma que não há uma verdade absoluta, confrontando diretamente assim a fé cristã na Bíblia e nos dogmas cristãos.
Para que possamos fazer uma análise mais detalhada de todo esse processo de influenciação da igreja, se faz necessário conhecermos algumas das características da pós-modernidade. Embora o termo “pós-modernidade” haja controvérsias quanto ao seu significado, é certo que ele começou a ter um uso mais significativo no final do século XX, influenciado especialmente com o desencanto das sociedades ocidentais com as ideologias. O filósofo francês François Lyotard caracteriza a pós-modernidade como uma decorrência da morte das "grandes narrativas" totalizantes, fundadas na crença no progresso e nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.
Estabeleceu-se, logo depois da segunda guerra mundial, uma crise nas sociedades, principalmente com a chamada crise dos “ISMOS” onde o Socialismo e o Capitalismo não responderam aos anseios das sociedades, e deixaram de polarizar as esperanças do povo. Agora estas sociedades estavam sem suas ideologias e utopias, ficaram órfãs de ideais e se indagavam quais os projetos futuros.
E aqui se destacam algumas características da pós-modernidade e as consequentes influencias na Igreja. Se não tem mais projeto futuro a tendência é: valorizar o instantâneo, o rápido, momentâneo, enfim se torna uma sociedade que o sociólogo Polonês Zygmunt Bauman definiu como líquida, por não encontrar mais um sentido profundo e sólido. Isso influenciou diretamente nos relacionamentos, onde percebemos as famílias com vínculos familiares leves. Já nos jovens, o “ficar” tem sido a regra, e não mais um compromisso de namoro, pois tudo passa a ser superficial.
Na Igreja, tem-se vivenciado isso, onde fiéis têm compromissos superficiais com Jesus e com a própria Igreja, já não há o engajamento verdadeiro, e nem o compromisso com os valores da Palavra de Deus. Hoje há milhares de crentes que são denominados de “desingrejados”, pois crêem que para ter um relacionamento com Deus não precisam da Igreja, mas como fazer parte do corpo, fora do corpo? Como desenvolver os dons coletivos vivendo no individual? Muitos dos que frequentam a Igreja não querem compromissos mais sérios, não querem se “envolver”. Ser um frequentador é o suficiente. Isso faz parte do pensamento pós-moderno.
Esse “espirito” Pós-moderno trouxe também a ultra individualização, fazendo com que as pessoas tenham uma vida virtual com a popularização das redes sociais. Tudo é virtual. Há um distanciamento físico entre as pessoas. Há comunicação, mas, sem intimidade, e isso tem criado uma falsa sensação de ser popular, já que as pessoas acreditam ter muitos amigos. Essa superficialidade envolve também os acontecimentos, as informações e o engajamento social, onde se acredita estar participando de tudo, onde se recebe e se passa uma avalanche de informações, onde todo mundo se acha conhecedor de algum assunto e participante de alguma coisa.
Essa sensação de participação, de engajamento social e ter a informação tem guiado a vida de muitos que se dizem cristãos, que enganosamente acreditam estar envolvidos com a Igreja, já que não perdem o culto on-line, e crêem também estarem bem informados já que não falta notícias e estudos bíblicos no seu canal preferido. No entanto, é importante lembrar que Cristianismo é acima de tudo relacionamento, e relacionamento aqui envolve aperto de mão, abraço, olhar no olho, conversar, ouvir e se preocupar com seu irmão. Vale lembrar ainda que não basta ter informação, mas, qual tipo de informação e o que fazer com ela.
As redes sociais nos abastecem de informações diariamente, mas, nem sempre o conteúdo é verdadeiro ou de qualidade. Para o Cristão, o paramento da qualidade e veracidade é a Palavra de Deus. Nestes últimos dias, a quantidade de artigos, ensinos e estudos heréticos nas redes sociais tem sido assustador. São textos aparentemente Cristãos, mas sem o respaldo da Palavra de Deus.
Vemos também multiplicação de “apóstolos”, “bispos” e “pastores” substituindo a Palavra de Deus por suas experiências espirituais e ensinos heréticos de forma impressionante. E o pior que tem havido uma absorção grande desses ensinos por parte da maioria dos fiéis que buscam novidades com muita avidez. Aliás, esta é mais uma característica da pós-modernidade.
A pós-modernidade trouxe avidez por novidades como já foi falado anteriormente. Há uma compulsiva e obsessiva busca pelo “novo”, tudo isso acompanhado da crença de que tudo que é antigo é ruim, feio e antiquado. Não é de se admirar que haja tantas novas “teologias” e “doutrinas”, e o aumento de igrejas para todos os gostos. Os pastores, num espirito competitivo, tentam inovar cada dia mais as programações nas Igrejas, sempre trazendo algo novo para agradar o público. A Palavra de Deus somente, parece não ser mais suficiente para esse novo público. Para se ter uma noção dessa criatividade, basta ver os títulos das campanhas que as Igrejas promovem no intuito de atrair público: “Campanha da queda do gigante”, “Campanha da sagrada família”, “Campanha da quebra da maldição”, “Campanha da prosperidade financeira,” entre outras, tudo isso explorando o egoísmo e o individualismo do tempo presente.
Uma das marcas da pós Modernidade tem sido o aumento do consumismo, da sociedade do espetáculo e o fascínio pela mercadoria. Aliás, nas redes sociais, os jovens parecem entender esse fenômeno e se apresentam como produtos, pois, apresentam a melhor foto, o melhor visual, pois quem não souber se “vender” não terá visibilidade nesta sociedade. Vemos essa tendência também nos programas televisivos das mais diversas denominações onde os “testemunhos” são cada qual mais impactante e espetaculoso que o outro. Outro dia vimos um desses “apóstolos” vendendo um lenço milagroso com o seu suor. Ele afirmava que um dos fiéis tinha uma dívida exorbitante em um banco. Este fiel adquiriu um desses lenços e passou na porta de vidro do banco no qual ele tinha a dívida, e esta, por sua vez, sumiu completamente, ficando ele assim livre da dívida. Não quero aqui limitar o poder de Deus, mas também não quero dar o poder baseado no espetáculo para a promoção de homens, roubando assim a glória de Deus.
Tudo isso tem nos levado a uma era de incertezas e afetado a saúde do indivíduo, gerando uma série de doenças bem características da pós-modernidade como a ansiedade, depressão e a síndrome de pânico. Nunca tivemos tantas opções de divertimento, e nunca a indústria do entretenimento lucrou tanto. Contudo nunca vimos tantas pessoas doentes e depressivas, inclusive dentro das Igrejas.
Diante desse quadro, devemos nos perguntar o que a Igreja deve fazer nessa pós-modernidade? Reconhecendo que parte da Igreja está contaminada com o espirito pós-moderno, os que ainda não foram alcançados totalmente devem continuar o papel de ser igreja que é pregar e viver o Evangelho de Jesus, pois o Evangelho de Jesus é simples, confiar e crer nas boas novas de Jesus, sem precisar fazer as trocas que o mundo pós-Moderno tenta impor aos Cristãos.
Não se pode esquecer o conselho do apostolo Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformada pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. ” (Romanos 12:2).
Ou ainda os conselhos de João: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. ”1 João 5:19).
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”. (1 João 2:15).
Paulo nos lembra ainda de que: “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai. ” (Gálatas 1:4). E de que: “O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. ” (2 Coríntios 4:4).
Não podemos estranhar o advento da pós-modernidade, tudo está previsto, tudo está avisado, não nos acostumemos, pois. A Igreja é  sempre será independente do sistema em vigor em no mundo.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Karl Barth - Sua Teologia (Parte 04)




                                                                                                            Pastor Flávio Neres



Sua Teologia

A teologia de Barth ficou também conhecida por “dialética”. “O termo chama a atenção para a ênfase, característica de Barth, sobre o fato de existir entre Deus e a humanidade uma relação dialética ou de contradição, e não uma de continuidade” McGRATH (2010, p.144).

Dentro de sua Teologia alguns pontos sobressaem-se mais, e destacam-se. Entre eles esta a centralidade de Cristo que é observada em toda a Teologia Barthiana, ele entende que o caminho de interpretação de tudo que se refere a Deus é a sua palavra, e se a palavra é Cristo e Cristo se revela nas escrituras, isso significa que toda a escritura como toda a Teologia deve ser entendida e compreendida a partir da perspectiva do próprio Cristo. De acordo com MONDIN (2003 p. 46): “Cristo constitui o ponto de vista no qual Barth se coloca para entender todo o resto da Revelação”.

É nesta perspectiva, que Barth fala da revelação de Deus. Assim, entende que o homem não pode por qualquer método conhecer a Deus, o “totalmente outro” o que o homem conhece de Deus é o que Ele mesmo revelou. E por esse motivo se originou a controvérsia que separou Barth e Emil Brunner:

Quando Emil Brunner, em Natur Und Gnade (1934) afirmou que, apesar disso, deve haver um ponto de contato do homem natural para a palavra proclamada, a fim de que o homem possa ser influenciado por ela, Barth respondeu com um não categórico. Em uma declaração intitulada Nein (1934), Barth não só se dissociou da teologia natural em sua forma tradicional (a ideia de que o homem possui certo conhecimento de Deus e também uma percepção natural relativa a certo e errado), mas também do conceito de Brunner da existência de um “ponto de contato” HAGGLUND,(2013, p.320, grifos do autor).


Barth entende que embora Deus não possa ser conhecido Ele pode ser reconhecido na palavra, e a palavra de Deus é o próprio Cristo. GRENZ e OLSON (2003, p.82) Laçam luz sobre este pensamento:

[...] o acontecimento singular da História no qual Deus se revelou é o advento de Jesus Cristo. E, em Cristo, Deus revela a si mesmo e não somente algumas informações ou um modo de vida. Para Barth, isso significa que “o Deus eterno deve ser conhecido através de Jesus Cristo e não de qualquer outra forma”.

Cristo se revela nas escrituras e na proclamação d’Ele através das escrituras. Essa é a Teologia Kerigmática. Portanto a importância não é só as escrituras, mas a proclamação das escrituras, dai o conceito de Barth que o dever do Cristão é a proclamação, proclamar o que Deus fala d’Ele mesmo em Cristo, e Cristo é encontrado nas escrituras. “A proclamação assume posição central não apenas como pressuposto de atividade teológica, mas também porque é o ponto em que a palavra de Deus confronta a congregação ouvinte hoje” HAGGLUND (2013, p. 318). No que diz respeito a Deus, as escrituras não podem ser entendida como palavra de Deus, no que diz respeito a Cristo as escrituras são o caminho para se chegar até Ele, e Ele é a verdadeira palavra de Deus. Com relação à palavra de Deus e a Bíblia GRENZ e OLSON esclarecem esta sentença de Barth resumindo assim:

Para Barth, a única fonte de teologia cristã é a Palavra de Deus. Essa Palavra, entretanto, consiste em três formas ou modos. A primeira forma é Jesus Cristo e toda a história dos atos de Deus que levaram até a vida de Jesus e estão relacionados a ela, bem como à sua morte e ressurreição. Essa é a própria revelação, o evangelho em si. A segunda forma consiste nas Escrituras, a testemunha privilegiada de toda a revelação divina. Por fim, a proclamação do evangelho através da igreja constitui a terceira forma. As duas últimas formas são Palavra de Deus apenas num sentido instrumental, pois tornam-se Palavra de Deus quando Deus as utiliza para revelar a Jesus Cristo. GRENZ e OLSON (2003, p.82)

Quando Barth vai construir a sua ideia teológica ele usa do método da dialética para fazer uma distinção clara entre quando se fala de Deus, quanta natureza de Deus e quando se fala de Cristo revelação de Deus, ou a palavra de Deus. Entende Barth que Deus não pode ser limitado a simplesmente uma revelação proporcional, porque é um Deus que age ilimitado.

Não se pode dizer que as escrituras objetivamente seriam a palavra de Deus, e porque se elas fossem objetivamente a única revelação de Deus significaria dizer que Deus limitou-se aquele próprio texto e descaracterizaria aquelas qualidades que nós demos a Deus, de transcendência, ilimitação, de indeterminação, então nós determinaríamos e imanaríamos Deus de uma forma definitiva e absoluta.

Barth rompe com essa ideia, e a Bíblia não pode ser chamada de palavra de Deus, porque Deus e sua palavra se confundem. Embora Barth tenha a compreensão de que a Bíblia não pode ser chamada de Palavra de Deus, mas, que contem a Palavra de Deus, não quer dizer que ele menospreza as Escrituras, pelo contrário GRENZ e OLSON confirmam isso:

[...] Barth tinha a mais alta consideração pela Bíblia, colocando-a sobre todas as autoridades humanas e, ao mesmo tempo, subordinando-a a Jesus Cristo. Ao longo de sua obra A Dogmática da Igreja, ele tratou a Bíblia como se fosse verbalmente inspirada e doutrinariamente infalível. Ele nunca apelou para outra autoridade além das Escrituras ou superior a elas. GRENZ e OLSON (2003, p.83)


Da mesma forma tendo Cristo como o centro de sua teologia, para Barth em sua soteorologia, Cristo é o eternamente eleito e o eternamente condenado. Sendo que toda a humanidade é por ele representada, assim ele absorve o conceito de dupla predestinação, sendo que este termo não quer dizer que uns são salvos e outros condenados, mas:

[...] refere-se, em vez disso, a Cristo, que ao mesmo tempo representa a escolha e a rejeição do homem. O      destino sofrido por Cristo reflete um processo intratrinitário com o qual Deus escolhe o filho, e nele a espécie humana, e que ele rejeitou o filho e permitiu que se submetesse a morte a fim de que pudesse ser ressuscitado para a glória eterna na ressureição e através dela. A predestinação é, pois, uma decisão eterna feita por Deus, significando que os homens – todos os homens – são admitidos a salvação, enquanto que o próprio Deus, na forma do Filho, torna sobre si mesmo a condenação. HÃGGLUND, (2003, p.319).


De acordo com Barth, o que é narrado no Novo Testamento com relação a Jesus Cristo não representa a mensagem da salvação, mas, é apenas uma figura de algo que já ocorreu na esfera eterna num processo dentro da divindade. “Ele encara a morte e a ressureição de Jesus como uma analogia a uma ação que ocorreu na eternidade, de Deus rejeitar e escolher o Filho.” FERREIRA (2003, p. 56)

É bem verdade que a teologia de Barth deteve o liberalismo teológico e fez com que a Igreja voltasse a olhar a Bíblia novamente pelo prisma da fé, mas é verdade também que foram inúmeras as criticas que Barth e sua Neo-ortodoxia receberam.

Mas, o certo é que o método teológico de Barth era forte por sua total dependência a revelação e foi construída independente de sistemas filosóficos e modismos culturais e intelectuais. “Dentre os líderes protestantes no Terceiro Mundo, nenhuma teologia foi tão influente quanto a de Karl Barth” GONZALES, (2004, p.447).

Hitler subiu ao poder em 1933, neste período Barth era professor de teologia em Bonn.

Barth não só pensava diferentemente de seus antigos mestres como também de uma grande parte da igreja na Alemanha, mas, também agia diferentemente, e começou denunciando imediatamente com muito vigor tanto os erros do nazismo quanto os erros da "Igreja Evangélica da Nação Alemã", que iludida vibrou com a ascensão de Hitler ao poder.

Conforme, MONDIN (2003 p.41) no início de julho de 1933, Barth, juntamente com Thurneysen, criaram uma nova revista, intitulada Theologische Existenz Heute (A Existência Teológica Hoje), esta nova revista tornou-se um instrumento e um canal do verdadeiro protestantismo que resistia e agora tomava o nome de igreja confessante e bravamente lutava contra as atividades nazistas, e nomes como, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemoeller, levantaram firme resistência da Igreja Evangélica Alemã contra as atrocidades e injustiças cometidas pelo nazismo.  

Em Barmen, em 31 de maio de 1934, Barth e Niemoeller redigiram um dos documentos mais simbólicos da história da Igreja Evangélica, que ficou conhecido com o nome de "Confissão de fé de Barmen".

Este documento que desafiava o nazismo e a submissão ao seu grande líder, ler-se entre outras coisas o firme propósito de mais uma vez enaltecer e seguir a palavra de Deus. Assim transcreve Mondin:

Segundo o testemunho das Escrituras, Jesus Cristo é a única Palavra de Deus. Unicamente a ela devem os ouvir e som ente a ela devemos confiança e obediência na vida e na morte. Repudiam os a falsa doutrina pela qual a Igreja poderia e deveria reconhecer, com o fonte de sua mensagem, além e ao lado dessa única Palavra de Deus, outros eventos, outras forças, personalidades e verdades como revelações de Deus. MONDIN (2003 p 42)

Como se era de esperar, isso trouxe muitas retaliações das autoridades do Reich, e no ano de 1935, Barth foi expulso da Alemanha e todos os seus títulos acadêmicos cancelados. Este tempo ele ficou em sua cidade natal, Basiléia o que lhe impulsionou a ter uma maior produção literária e a continuar sua luta contra o nazismo, MONDIN (2003, Apud, CASALIS, 1967, P.38) diz que Barth:

Empenha-se menos na ação, dispõe de maior tempo, escreve em ritmo intenso, publica livros e artigos para revistas de temas religiosos variados, prepara conferências e sermões e lança os fundamentos da resistência espiritual ao nazismo em todo o mundo. A objetividade, a proximidade e a autoridade de Barth, exilado na própria pátria e frequentemente suspeito para o seu próprio governo, tornam sua atividade nesse período não menos preciosa do que a desenvolvida em Bonn.


Sem duvida alguma a obra de Barth nos mais distintos períodos enriqueceu o meio teológico e acadêmico e influenciou e ainda influencia gerações, e é com muita propriedade que GONZALES (2004, p.447) assim resume a obra de Barth:

Barth desenvolveu uma teologia que foi além das restrições da ortodoxia sem, por conseguinte, abandonar qualquer de seus temas tradicionais. Semelhantemente, sua teologia evitou a extrema maleabilidade do Liberalismo sem por isso rejeitar as conquistas dos estudos históricos, do criticismo bíblico e de outros desenvolvimentos modernos. Isto levou à recuperação de muito da herança do período Patrístico e da Reforma. Também significou que Barth foi amplamente lido e respeitado pelos teólogos católicos contemporâneos, e que sua influência pode ser vista em muito do pensamento católico moderno. GONZALES (2004, p.447).

Karl Barth faleceu em dezembro de 1969, mas, seus ensinos continuam a ser propagados por sua extensa e valiosa obra escrita como também por seus numerosos discípulos.


Neste primeiro capítulo, viu-se a vida e obra de Karl Barth. Observou-se também os principais pontos de sua teologia. No próximo capitulo será apresentado o neopentecostalismo e a ênfase de suas pregações, como também seu distanciamento do evangelho genuíno.

Karl Barth - Sua Obra (Parte 03)





                                                                                                                       Pastor Flávio Neres


Obras

Durante a sua vida Barth teve uma produção literária vastíssima, de acordo com FRANKLIN FERREIRA, (2013, p. 250) ele escreveu quase 500 livros, artigos e estudos sendo que sua obra mais famosa foi a Dogmática eclesiástica (em alemão, Die Kirchliche Dogmatik). Entre as suas obras podemos destacar: Der Romerbref (Comentário aos Romanos).

Com a publicação em 1919 desta obra Der Römerbref (um comentário à carta de Paulo aos Romanos), Barth realiza um forte protesto a teologia liberal e praticamente lança um desafio contra aquelas escolas que tinham transformado a teologia em um exercício racional, onde prevaleceria sempre à razão. Escolas estas que tinham transformando a religião em tão somente uma prática moral.

Barth publicou a segunda edição da obra poucos anos depois, mais precisamente em 1922, e este comentário é considerado o início da nova escola que posteriormente se tornou conhecida por vários outros nomes como a escola dialética, teologia da crise ou ainda Neo-ortodoxia. Como fez ver na Carta aos Romanos, Barth pretendia substituir a interpretação meramente cientifica e histórica com uma exposição “dialética” mais profunda da própria Bíblia.

Esta obra foi o grande marco da ruptura de Karl Barth com a teologia Liberal e seus antigos companheiros e mestres, mas, também serviu como um despertamento para o mundo teológico de então, que estava adormecido nos preceitos liberais, BATTISTA MONDIN (2003, p.39) assim descreveu este impacto do comentário da carta aos Romanos como também o testemunho do próprio Barth com relação à repercussão de sua obra.

Nele combate o racionalismo, o humanismo e o liberalismo, que tinham invadido a teologia protestante no século XIX, e traz novamente à luz a unicidade e o paradoxo da fé bíblica. Contra a teologia liberal, que eliminara a infinita distância que separa o homem de Deus e a razão da Revelação, Barth, inspirando-se em Kierkegaard, reivindica a infinita diferença qualitativa “entre religião natural e Revelação, entre filosofia e Bíblia”. Para dar relevo a tal diferença, utiliza o método dialético do "não" de Deus a tudo aquilo a que o homem diz que "sim”.
O Der Römerbref suscitou interesse e viva reação em todos os ambientes teológicos da época, em particular no protestantismo alemão. Mais tarde, Barth escreveria a propósito: "Pareço mais um rapaz que, subindo ao campanário da igreja paroquial, puxa uma corda ao acaso e, sem querer, coloca em movimento o sino maior: trêmulo e amedrontado, percebe que acordou não apenas sua casa, mas também a aldeia inteira”.

Neste mesmo sentido é que HÄGGLUND (2014, p.315, grifo do autor) em seu olhar no comentário aos Romanos afirma a importância desta obra de Barth:

[...] Barth formulou vigoroso protesto não apenas contra a teologia contemporânea, mas contra toda a tradição que se vinha formando desde Schleiermacher e que fundamentava o cristianismo na experiência humana e considerava a fé um elemento na vida espiritual do homem. Der Römerbrief foi também um protesto contra aquelas escolas que tinham transformado a teologia em ciência da religião e tinha apresentado a analise histórico-critica da Bíblia como a única interpretação possível.


Grandes foram às consequências desta obra no meio teológico da época, causando grandes e duros debates, trazendo assim um grande despertar no mundo teológico de sua época, que até então estava firmado sobre os preceitos liberais de apenas olhar a teologia como uma abordagem histórica e critica da bíblia.
Die Kirchliche Dogmatik (Dogmática Eclesiástica).

Em 1927 Barth publicou o primeiro volume de uma série chamada Dogmática Cristã. Diante das diversas criticas por ter baseado esta obra na filosofia existencialista, fez com que ele voltasse atrás e refizesse tudo o que ele havia feito, pois na realidade buscava uma teologia mais Cristocêntrica, fugindo de toda influencia filosófica, desta forma nasceu a Dogmática Eclesiástica.  O objetivo de Barth nesta nova versão fica claro, seu objetivo principal era enfatizar a revelação de Deus, é assim que (FERREIRA, 2003, P.35) relata este processo:

Em 1927 publicou o primeiro de uma projetada série de volumes sobre Die Christliche Dogmatik (Dogmática Cristã), mas Barth foi criticado por esta ser baseada na filosofia existencialista. Certamente, ele não subordinou a revelação ao existencialismo na mesma medida que Bultmann, mas desejava produzir uma teologia bíblica e livre da dependência de qualquer influencia filosófica. Além disso, queria enfatizar a objetividade da revelação de Deus mais do que a subjetividade da fé humana. Então ele decidiu começar novamente e em 1932, iniciou a Die Kirchliche Dogmatik, obra que não chegou a terminar.

Embora, não tenha sido concluída pelo falecimento de seu autor, esta obra ficou como um grande legado para a teologia do século XX, não só pelo tamanho, mas, pelo seu conteúdo. De acordo com (FERREIRA, 2013, P. 250) assim retrata a divisão desta volumosa obra e seu objetivo.

Essa obra é dividida em quatro volumes principais, cada um subdividido em volumes parciais. Suas ênfases foram: Deus é soberano e transcendente, o homem é pecador e precisa da graça de Deus, e Cristo Jesus é a palavra de Deus ao homem – claramente se opondo a teologia liberal, que era centrada no homem. Barth deu ênfase renovada nas Escrituras como base da teologia, não de comunicar verdades proporcionais, mas no sentido de provocar, por meio do Espirito Santo, um encontro entre Deus e o homem.

“A Die Kirchliche Dogmatik buscou ser a expressão da fé da igreja, e não de uma escola teológica particular.” (FERREIRA, 2003, P. 37).

A “Proclamação do Evangelho”. Embora, esta obra não tenha alcançado a mesma repercussão de outras obras, ela tem um valor especial, pois, é a base para este trabalho, de onde serão extraídos os ensinos da incursão que Barth faz na teologia prática com algumas regras e sugestões através de sua visão bem dogmática nos apresentando o tema: “O sermão e o modo de prepara-lo”.

Barth nesta obra busca discutir teologicamente a grande importância da pregação na vida da igreja e nas expectativas da comunidade. Aqui não é manual de homilética, mas trás boas sugestões inclusive para nossos dias para o bom exercício da pregação.

O próprio Barth na introdução datada de maio 1961 coloca como essenciais às sugestões apresentadas, diz ele: “Aqui, trata-se antes de tudo de algumas normas e sugestões de ordem prática que me parecem, todavia hoje, essenciais e dignas de serem meditadas, ou, ao menos, lidas com alguma atenção e discutidas.” BARTH, (2000, P. 7)


É nesta obra que buscaremos mais subsídios para fundamentar nosso estudo, aplicando as sugestões fornecidas por Barth como contribuição aos pregadores neopentecostais da atualidade. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Karl Barth - O rompimento com a Teologia Liberal (Parte 02)



                                                                                                       Pastor Flávio Neres



O rompimento com a Teologia Liberal
Enquanto Barth estava mergulhado com as causas sociais e seu pequeno rebanho, a primeira grande guerra e seus males trazia ao mundo uma gravíssima crise. E junto com a grande guerra lhe chegaram também os desapontamentos e decepções como também a realidade lhe era despertada, pois, seus antigos mestres aqueles dos quais tinha bebido das fontes da teologia liberal, estavam completamente envolvidos e em concordância ao pensamento militarista do imperador alemão.

Assim é colocada por GRENZ e OLSON esta decepção que contribuiu para sua decisão de romper com o liberalismo:

Em agosto de 1914, ele leu a publicação de uma declaração realizada por noventa e três intelectuais alemães que apoiavam a política de guerra do imperador Wilhelm. Entre eles estavam quase todos os seus professores de teologia, os quais, até então, ele havia honrado profundamente. O apoio que ofereceram ao imperialismo alemão levou Barth a crer que, se podiam ceder tão facilmente à ideologia de guerra, tinha de haver algo de terrivelmente errado na teologia deles. Desiludido pela conduta de seus mestres, Barth concluiu que não podia mais “aceitar suas éticas e dogmas, sua exegese bíblica, sua interpretação da História”. Para ele, toda a teologia liberal do século 19 não tinha futuro e, assim, ele passou a dedicar seu considerável (e até então oculto) talento teológico a destruí-la. GRENZ e OLSON (2003, p.77)

É importante ressaltar que na teologia liberal que boa parte destes intelectuais defendiam trouxe uma exagerada introdução do racionalismo dentro da igreja, fazendo com que a teologia fosse uma teologia da academia e não da comunidade cristã, sendo assim essa teologia trouxe graves consequências no seio da igreja.
Foi a época em que surgiu o método histórico-critico de interpretação da Bíblia, negando a inspiração divina de seus livros e tratando-a como mero registro humano, falível e contraditório, da fé de Israel e dos primeiros cristãos. A confiança na Bíblia foi tremendamente abalada. NICODEMUS (2015, p.108)


Nesta época surgem grandes teólogos que desenvolvem a sua teologia centrada na razão, um dele é Rudolf Bultmann que embora tenha rompido com o liberalismo Teológico posteriormente, ainda influenciado por este pensamento, apresenta o seu método de interpretação das escrituras conhecido como “Desmitologização”. De acordo com NICODEMUS (2015, p.58) Bultmann cria que deveria se interpretar a Bíblia retirando os mitos, somente assim se compreenderia a realidade que há por trás deles, e que poderiam ser explicados por meios naturais. Dai se entendia que os milagres narrados na Bíblia não ocorrem verdadeiramente, mas necessitam ser “desmitologizados” para se compreender a verdade que há por trás deles. Isso aumentou crise na igreja, já que os milagres narrados na Bíblia e inclusive a ressureição de Jesus tem um grande significado para a igreja.
De acordo com Bultmann, pessoas modernas não podem mais aceitar a estrutura mitológica do Novo Testamento. Nós não vivemos mais em um universo de três camadas, habitado por espíritos. Não cremos mais em milagres, mas estamos convencidos de que todos os eventos podem ser explicados por meio de causas naturais. O Novo Testamento fala de um “Espírito” e de sacramentos que não têm significado para nós. A teoria que a morte é punição para o pecado é contrária a todo pensamento moderno. A noção que todos somos salvos por meio da morte de uma pessoa é contrária ao nosso altíssimo senso moral. E a ressurreição física de Jesus também está infectada com dificuldades. GONZALES, (2004, p.449).


Segundo, NICODEMUS (2015, p.58): “Esta é a velha proposta do liberalismo: rever totalmente o cristianismo e substitui-lo por uma religião que seja racional e cientifica”.

É neste cenário que surge Barth e sua Teologia Dialética, rompendo com o Liberalismo Teológico e apresentando o seu conceito querigmático sobre a revelação de Deus na palavra escrita e na pregação da igreja. Sua Teologia faz o retorno de volta às escrituras e a Deus na pessoa de seu filho Jesus, trazendo a igreja de volta a uma fé contemplativa, e de uma relação subjetiva do ser humano com Deus.
No caso de Barth, isto estava intimamente conectado com sua convicção crescente de que existe um conteúdo na Palavra de Deus. Não é meramente uma questão de um encontro. Há também um “Logos”, uma racionalidade, de forma que a Palavra nos leva para sua própria compreensão. Isto significava tanto que a filosofia existencialista, com sua ênfase no momento, tinha que ser deixada para trás, quanto que a Teologia podia e devia se mover na direção de buscar entender a Palavra de Deus e elucidar suas implicações, não baseada no Existencialismo, ou em qualquer outra filosofia, mas baseada na “lógica da fé”. GONZALES (2004, p.441 e 442).


Barth tira o foco que estava totalmente no homem e sua razão e volta-se novamente para Deus, a teologia agora é o estudo da palavra de Deus e não mais de uma experiência religiosa ou de uma filosofia humana. A bíblia não é mais apenas um livro comum com alguns relatos históricos que precisam ser examinados pela razão como criam os liberais, Para Barth a bíblia não é um livro simplesmente histórico, mas, que contem a palavra de Deus. Assim nos informa Ferreira sobre este entendimento de Barth:

Argumentava que estas grandes verdades não podem ser construídas a partir da experiência ou da razão, mas devem ser recebidas da revelação de Deus, numa atitude de obediência. O que estava em curso era uma revelação no método teológico, uma teologia do “alto”, para substituir a antiga teologia “de baixo” centralizada no ser humano. FERREIRA ( 2003, P.33)



Barth começou então um período frutífero de produção acadêmica e deixou um grande legado com sua vastíssima obra, firmando o seu pensamento teológico, que será visto agora.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Karl Barth - Vida e Obra (Parte 01)



                                                                                             Pastor Flávio Neres



Artigo retirado do Livro "Barth e a pregação".


  Inegavelmente no século XX, Karl Barth foi o grande protagonista do cenário teológico quando rompeu com o liberalismo que vinha desde o final do século XVIII iniciado com Friedrich Schleiermacher. Este movimento teve continuação pelos próprios seguidores de Schleiermacher, sendo que estes tinham uma teologia mais antropocêntrica, que girava em torno dos valores humanos, ideias estas originadas e vindas do Iluminismo. Neste período tudo era submetido a um crivo da investigação racional, incluindo a Bíblia. Neste sentido a fé foi abandonada em detrimento a razão humana. Barth surge neste cenário, e ao oposto daquilo que a Teologia Liberal defendia, Barth através de suas obras mostra a necessidade da humanidade em conhecer a revelação de Deus em Jesus Cristo e através das escrituras.

 Vida

De acordo com Franklin Ferreira (2003, p.30): “Karl Barth nasceu em Basiléia, Suíça, no dia 10 de maio de 1886. Era filho de Fritz Barth, um ministro reformado e professor de Novo Testamento e História da Igreja na Universidade de Berna, na Suíça, e de Anna Sartorius”. É considerado um dos maiores pensadores protestantes do século XX, quando se fala em teologia contemporânea e se quer realmente desenvolver um estudo sério desta matéria, pode-se até se contrapor ao pensamento de Barth, mas, nunca e jamais negligencia-lo.
Pode-se até afirmar que a teologia contemporânea nasceu com o próprio Barth em 1919, que teve como marca principal o comentário da carta de Paulo aos romanos, que será visto neste trabalho posteriormente.

Ele recebeu sua educação inicial como membro da Igreja Reformada Suíça por seu pastor, Robert Aeschbacher” FERREIRA, (2003, p.30). Mas, “Suas principais influencias acadêmica ele recebeu de Adolf Von Harnack (1851 – 1930), Hermann Gunkel (1862 -1932), Adolf Schlatter (1862-1932) e Willherm Herrmann (1846 – 1922)”. FERREIRA (2003, p.31).

Em 1913 ele se casou com Nelly Hoffman, uma talentosa violonista, com a qual teve uma filha e quatro filhos. De acordo com FERREIRA, (2003, p.31) Tão logo concluiu seus estudos Barth foi ser pastor assistente em uma pequena igreja de Genebra, e só iniciou o seu pastorado em 1911 em uma pequena cidade no interior da Suíça de 2000 habitantes, chamada Safenwill, onde ficou até o ano de 1921. Foi nesta cidadezinha do interior que Barth conheceu a realidade rural e a disputa existente entre operários e patrões que acontecia na única fabrica da região de onde dependia toda a comunidade.

Afirma ainda FERREIRA (2003, p.31), foi assim que Barth começou a se envolver com conflitos e questões sociais, e tornou-se um socialista cristão sendo influenciado por Hermann Kutter (1869-1931) e Leonhard Ragaz (1868-1945). Envolveu-se ainda em atividades políticas e ajudou a fundar um sindicato, e chegou a filiar-se ao Partido Social Democrata em 1915, mas, seus ideais socialistas como também a sua fé liberal foram abalados ao se iniciar a primeira guerra mundial.

Neste período Barth estava tão envolvido com as causas sociais e politicas que a Teologia não era mais prioridade em sua vida, embora exercesse o pastorado.
[...] ele foi para o pastorado convencido de muitas das doutrinas da teologia liberal, mas logo chegou à conclusão de que havia outros assuntos que eram mais relevantes para seu trabalho do que a teologia. Embora durante os primeiros anos de seu pastorado ele continuasse suas leituras teológicas, ele declarou, posteriormente, que em Safenwil, ele se tomou tão envolvido no movimento Social Democrata que lia teologia somente quando era necessário para sua pregação e ensino, e passava a maior parte de seu tempo estudando legislação industrial, organização sindical e assuntos semelhantes. Ele estava convencido de que Deus estava trabalhando para trazer o reino, nem tanto por meio da igreja, que estava letárgica, quanto por meio da Democracia Social. Em 1915, ele se uniu oficialmente ao Partido Social Democrático. GONZÁLES (2004, p.439).


Começava aqui as primeiras trincas no muro de seus preceitos liberais os quais defendia até então, foi justamente neste inicio de seu pastorado em Safenwill, que sentiu de perto a necessidade de seu rebanho, e percebeu que toda a sua “bagagem” liberal e aquilo que tinha como verdade não supria esta necessidade, não satisfaziam os anseios daquela comunidade, houve em si uma  mudança interior iniciando assim o processo de ruptura com o liberalismo teológico que o havia formado. A esse respeito, comenta Battista Mondin:

Quando subiu ao púlpito, percebeu a inutilidade de todos os estudos histórico-críticos da vida de Cristo e do Evangelho. Aquilo que o povo lhe pedia era o anúncio da Palavra de Deus e não doutas dissertações sobre aquilo que pertencia à história e aquilo que pertencia à fé. Pedia-lhe, ademais, um anúncio correto, atual, que correspondesse aos problemas colocados pela industrialização, pela socialização, pela luta de classes, pela guerra. MONDIN (2003, p. 37).


segunda-feira, 10 de julho de 2017

O CONSELHO DO SÁBIO SÓCRATES







Platão, no livro “A República,” já no final do livro II, narra o debate entre Sócrates (seu mestre) com Glauco e Adimanto. Ali são expostos os pensamentos do grande filósofo Sócrates instruindo de como se ter uma cidade forte ou, em outras palavras, o que se deveria fazer para o fortalecimento da sociedade.
Embora tenham se passados tantos séculos, os conselhos daquele que conhecia a fundo a alma humana, ainda continua mais atual que nunca.
Sócrates dizia: “como era costume entre os gregos, a educação deveria oferecer ginástica para o corpo e música para a alma. A educação começaria pela música, que inclui as outras formas literárias, como as fábulas e as poesias. Mas seria preciso separar na poesia o que é verdadeiro e formativo do que é falso e prejudicial à formação das crianças. De fato, mesmo os maiores poetas – como Hesíodo e Homero – fantasiam muitas coisas e dizem mentiras nos seus poemas, principalmente quanto ao comportamento dos deuses, atribuindo-lhes condutas indignas da sua condição divina, como o ciúme, a inveja, as conspirações, os mais variados crimes, além de inimizades e guerras entre eles. Mesmo que haja alguma verdade no que dizem os poetas, deve-se evitar narrar essas coisas ás crianças, por que elas ainda não são capazes de distinguir o que é alegórico do que não é. Na verdade, seria preciso propor novos padrões de composição para que os poetas narrem histórias orientadas para a virtude, uma vez que a primeira formação marca definitivamente a alma das crianças”.
Que conselho para a formação de um cidadão, cuidar do corpo e da alma! Infelizmente, a nossa sociedade atual não zela por nenhum dos dois, nem do corpo e muito menos da alma e por isso mesmo temos formado esta sociedade tão frágil e corrompida. Em especial, nossos jovens não exercitam mais o físico (corpo), pois estão presos ás tecnologias eletrônicas que não lhes permitem tempo para outra atividade qualquer.
Brincadeiras antigas que exigiam correr, pular, como o pega-pega, bandeira, esconde-esconde, amarelinha, entre outras, que eram a alegria da geração passada, estão praticamente abolidas nos dias atuais.
Mas, é verdade que também não temos tratado da alma de nossas crianças e jovens, não nos importamos mais com os bons livros, boas músicas ou uma programação em família, não mais filtramos como aconselhou Sócrates o que irá fazer mal á alma. Nossas crianças, desde a mais tenra infância, estão expostas a uma programação televisiva pobre de valores e, pior ainda, as redes sociais despejam todo tipo de lixo na alma de nossas crianças. Se Sócrates  preocupava-se que as crianças de sua época aprendessem condutas indignas como o ciúme, a inveja e a mentira, o que então não nos deve preocupar com os exemplos e condutas que são ensinados em nossos dias? Não é de se admirar que estamos formando uma geração de jovens sem perspectivas para o futuro, jovens sem objetivos na vida e imaturos. Estamos lançando sobre nossas crianças todo tipo de programação e ensino criados em mentes doentias, com uma programação onde se vê sexo a toda hora, drogas e guerras e onde as mortes são coisas normais. A mídia tem liberdade absoluta para criar uma programação deturpada, que diariamente entra em nossos lares entregando aos nossos filhos um produto pronto que é aceito sem nenhuma contestação. Como pais, nos esquecemos do conselho de Sócrates de que as crianças “não conseguem distinguir o que é alegórico do que não é”.
Temos confiado ao Estado, a Igreja e a mídia a formação de nossos filhos. Está na hora de como pais tomarmos a responsabilidade que é nossa e investirmos na saúde física e intelectual de nossos filhos para que amanhã tenhamos uma geração melhor.                      Pastor Flávio Neres

terça-feira, 4 de julho de 2017

A POLITICA E A EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL




Uma reflexão sobre a legislação constitucional.
                                                          
                                                                                                      Flávio Neres 

 Introdução
Para haver desenvolvimento de um povo faz-se necessário firmar sua base na educação. Infelizmente não é isso que se comprova ao longo da história do Brasil, pois a organização do sistema de ensino brasileiro sempre se mostrou lenta, sempre se observou um desprezo nessa área por parte do Estado, embora no princípio não se cogitasse a cobrança desta responsabilidade ao Estado, já que a obrigação do mesmo Estado com a educação só veio a surgir com a revolução francesa a partir de 1789.
Apesar disso, podemos ver uma evolução na organização do sistema de ensino brasileiro, embora de forma tímida, tendo como espelho a carta magna de nosso país, já que este tema foi tratado ao longo das Constituições brasileiras de acordo com cada época, em menor ou maior grau de abrangência.
É certo que, por séculos, os cidadãos de nosso país tiveram negado o direito ao conhecimento pela sistematização na organização escolar gerida por uma classe elitista. Ainda assim, se pode perceber uma acanhada ou quase inexistente política de educação visando à democratização do conhecimento na legislação constitucional ao longo da história. Podemos também constatar em todo o período histórico que nas pouquíssimas políticas de educação, a educação básica não era muito valorizada e só veio a ter um destaque mais abrangente com a carta cidadã de 1988.
 Resumo na evolução da educação na história das constituições
Olhando a evolução da educação no Brasil de forma cronológica, logo se constata que a educação no Brasil tem seu marco inicial no período colonial com o desembarque dos Jesuítas em Salvador, no ano de 1549. Educação aquela que era direcionada tão somente para o ensino do português, canto, doutrina cristã, leitura, escrita, música, aprendizado profissional e agrícola e á gramatica latina. Até a expulsão dos Jesuítas, no ano de 1759, pelo Marquês de Pombal, a educação no Brasil era de responsabilidade quase irrestrita dos Jesuítas e tinha uma vertente religiosa que perdurou por mais de dois séculos. Com a ausência dos Jesuítas e com as reformas Pombalinas, a educação no Brasil torna-se pública e estatal.
Mas, com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, a preocupação educacional restringiu-se à formação das elites governantes e militares.
Alguns anos adiante, com a carta magna outorgada em 1824 por D. Pedro I, embora o ensino fundamental ainda não tenha sido atendido satisfatoriamente, foi instituída a gratuidade para a educação primária a todos os cidadãos, ressaltando que só eram considerados cidadãos naquele período os nascidos em solo brasileiro e que fossem livres e grandes proprietários de terras, ou seja, os escravos, índios, mulheres e homens brancos pobres não tinham a cidadania e nem acesso à educação.
A constituição de 1891, a primeira Constituição republicana, não se preocupou muito com as questões propriamente educacionais, seu empenho maior foi com as questões formais, estabelecendo competências, como: a responsabilidade dos Estados-Membros de legislar sobre o ensino primário e secundário, como também a criação e a manutenção de escolas primárias. Mas, o grande avanço nessa primeira Constituição republicana foi a determinação do ensino leigo em todas as instituições públicas, já que o estado era laico e não tinha religião oficial.
Na constituição de 1934, houve avanços significantes para a educação brasileira, reconhecendo sua importância para o desenvolvimento sócio-cultural do país. Percebe-se nessa carta um olhar diferenciado do Estado sobre a educação. Pela primeira vez o Estado toma para si a responsabilidade de traçar as diretrizes da educação nacional. A educação passa a ser vista como um direito de todos e deveria ser ministrada de forma conjunta entre a família e o Estado. Na história constitucional é a primeira vez que se tenta firmar um projeto educacional de longo prazo e que alcançasse todo o território nacional. A educação passou a ser vista como um direito de todos. Houve ainda uma qualificação dos professores.
Se na Constituição de 1934 houve grandes avanços, o mesmo não aconteceu com a Constituição outorgada de 1937, conhecida como a Constituição do “Estado Novo”, pois houve um grande retrocesso na área educacional. Nesse período, o regime Getulista, querendo se eximir da responsabilidade nesta área, deu grandes vantagens ao ensino particular. O poder público se retraiu passando a responsabilidade da educação exclusivamente para as famílias e a sociedade civil. O desprezo do governo nesse período foi tão evidente que o texto constitucional não versou nada com relação a recursos para manter o sistema educacional. No entanto, há uma política totalmente discriminatória com relação aos ricos e pobres, onde os pobres são direcionados ao ensino profissionalizante e os ricos recebem o privilégio de uma escola secundária voltada para a formação intelectual da elite.
Com o fim do “Estado Novo” a constituição promulgada de 1946 procurou resgatar o modelo educacional idealizado pela Constituição de 1934, a educação volta a ser um direito de todos. O Estado volta a ter a responsabilidade de ofertar vagas no ensino público em todos os níveis. A constituição outorgada de 1967 foi a primeira, após o golpe de 1964, a determinar que o ensino gratuito ao ensino pós-primário passasse a depender de uma comprovação de aproveitamento escolar para continuar a ser patrocinado pelo poder público (art. 168, §3°, III). Isso beneficiava, mais uma vez, o ensino particular em detrimento do ensino público.
 A constituição de 1988 e os avanços da educação básica
Se a maioria dessas Constituições não tinha a educação como uma prioridade e não tratava este tema de forma objetiva, a Constituição de 1988 a “Constituição Cidadã” preocupou-se em criar mecanismos eficazes de garantir a todos o direito à educação: “a educação é um direito de todos e dever do Estado e da família”. É nesta Carta magna que também vemos, pela primeira vez, um real interesse e um novo conceito sobre a educação de base, trazendo um novo olhar sobre essa faixa etária dos estudantes brasileiros e que veio a ser fortalecida na década seguinte, pela promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Pudemos ver, assim, um avanço significativo na Educação básica, que compreende a educação infantil (de 0 a 6 anos), o ensino fundamental (de 7 a 14 anos) e o ensino médio (de 15 a 17 anos).   Os dois últimos, antes da nova (LDB) chamavam-se de 1° e 2° graus.
Embora ainda haja muito a se melhorar, podemos ver que os números da educação no Brasil vêm apresentando significativas conquistas, e que o Brasil, desde a sua independência, não conseguia uma transformação tão acentuada com relação à Educação como nesta Constituição. Se por um lado podemos comemorar esta guinada, na política educacional brasileira, por outro lado, ainda não podemos comemorar de forma entusiasmada sobre a qualidade e o desempenho dos alunos, principalmente os que estão no ensino médio. De acordo com estudos no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), de 2005 a 2013 há um fraquíssimo desempenho de nossos alunos, principalmente os alunos do ensino médio. Esses dados se agravam mais ainda se comparado a outros países.
 Considerações finais
Estes são desafios que o Brasil precisa vencer, tanto concernente à universalização do ensino, quanto à qualidade do mesmo, pois estes desafios devem ter acima de tudo um olhar social já que atinjam principalmente as parcelas mais carentes da sociedade: os pobres, os indígenas e os negros, as crianças com deficiências e o homem do campo. Entre tantos ganhos que obtemos com a educação básica, sabemos que há uma ligação direta da expansão da educação básica com a melhora dos índices de saúde pública, na demografia e na economia. Na saúde, com a melhora das taxas de vacinação, prevenção e tratamento de doenças e melhoria nas condições de higiene. Na demografia com a redução das taxas de mortalidade infantil e redução nas gravidezes indesejadas. E na economia com o aumento da produtividade na sociedade, com o consequente aumento no poder de compras. A sociedade só tem a ganhar, todo investimento com políticas de educação na educação básica, são políticas que enriquecem o Brasil, trazendo um verdadeiro progresso ao seu povo.
É de fundamental importância a busca por equidade e inclusão dentro das esferas da educação em nosso país, já que esta desigualdade educacional é ainda uma marca histórica em nosso país. A educação está sempre em evolução sempre se transformando, novos desafios têm surgido como a recente reforma do ensino médio e a proposta política da “escola sem partido”. É importante ressaltar que esta é uma responsabilidade de toda a sociedade, já que a Constituição de 1988 estabelece que a responsabilidade no que tange à criança e ao adolescente, cabe ao Estado, à família e à sociedade civil (art. 205, CF).

Ainda temos muito que avançar quando o tema é educação básica. Mas, aos poucos, o país vem tentando reverter este quadro com medidas importantes apontadas pela Constituição de 1988 juntamente com outras iniciativas como: a gratuidade e obrigatoriedade do ensino fundamental, atendimento especializado aos portadores de necessidades especiais, creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade, ensino noturno e regular e adequado ás condições do adolescente trabalhador, e ainda a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, e a Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), em 2006. Já em 2008, foi instituído o piso salarial nacional para os profissionais do magistério público da Educação Básica, entre tantas outras ações. O importante é que vemos, ao longo dos anos, uma construção, e políticas educacionais que buscam o aprimoramento e soluções para uma educação básica de qualidade e que estas políticas possam chegar a todos de forma igualitária, e que seja uma luta de todos como determina a Constituição: Estado, família e Sociedade civil.