Pastor Flávio Neres
Vivemos no mundo da “globalização”,
no mundo da pós-modernidade, e isso tem trazido uma mudança de conceitos,
valores e comportamentos para a humanidade. Podemos afirmar que os valores da
pós-modernidade têm confrontado e até mesmo influenciado a igreja, já que a
pós-modernidade trouxe consigo a
destruição dos referenciais que vinham norteando o pensamento estabelecido até
então. Como exemplo desta transformação podemos ver que o pensamento
pós-moderno afirma que não há uma verdade absoluta, confrontando diretamente
assim a fé cristã na Bíblia e nos dogmas cristãos.
Para
que possamos fazer uma análise mais detalhada de todo esse processo de
influenciação da igreja, se faz necessário conhecermos algumas das
características da pós-modernidade. Embora o termo “pós-modernidade” haja
controvérsias quanto ao seu significado, é certo que ele começou a ter um uso
mais significativo no final do século XX, influenciado especialmente com o
desencanto das sociedades ocidentais com as ideologias. O filósofo francês
François Lyotard caracteriza a pós-modernidade como uma decorrência da morte
das "grandes narrativas" totalizantes, fundadas na crença no
progresso e nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.
Estabeleceu-se,
logo depois da segunda guerra mundial, uma crise nas sociedades, principalmente
com a chamada crise dos “ISMOS” onde o Socialismo e o Capitalismo não
responderam aos anseios das sociedades, e deixaram de polarizar as esperanças
do povo. Agora estas sociedades estavam sem suas ideologias e utopias, ficaram
órfãs de ideais e se indagavam quais os projetos futuros.
E aqui
se destacam algumas características da pós-modernidade e as consequentes
influencias na Igreja. Se não tem mais projeto futuro a tendência é: valorizar
o instantâneo, o rápido, momentâneo, enfim se torna uma sociedade que o
sociólogo Polonês Zygmunt Bauman definiu como líquida, por não encontrar mais um
sentido profundo e sólido. Isso influenciou diretamente nos relacionamentos,
onde percebemos as famílias com vínculos familiares leves. Já nos jovens, o
“ficar” tem sido a regra, e não mais um compromisso de namoro, pois tudo passa
a ser superficial.
Na
Igreja, tem-se vivenciado isso, onde fiéis têm compromissos superficiais com
Jesus e com a própria Igreja, já não há o engajamento verdadeiro, e nem o
compromisso com os valores da Palavra de Deus. Hoje há milhares de crentes que
são denominados de “desingrejados”, pois crêem que para ter um relacionamento
com Deus não precisam da Igreja, mas como fazer parte do corpo, fora do corpo?
Como desenvolver os dons coletivos vivendo no individual? Muitos dos que frequentam
a Igreja não querem compromissos mais sérios, não querem se “envolver”. Ser um
frequentador é o suficiente. Isso faz parte do pensamento pós-moderno.
Esse
“espirito” Pós-moderno trouxe também a ultra individualização, fazendo com que
as pessoas tenham uma vida virtual com a popularização das redes sociais. Tudo
é virtual. Há um distanciamento físico entre as pessoas. Há comunicação, mas,
sem intimidade, e isso tem criado uma falsa sensação de ser popular, já que as
pessoas acreditam ter muitos amigos. Essa superficialidade envolve também os
acontecimentos, as informações e o engajamento social, onde se acredita estar
participando de tudo, onde se recebe e se passa uma avalanche de informações,
onde todo mundo se acha conhecedor de algum assunto e participante de alguma
coisa.
Essa
sensação de participação, de engajamento social e ter a informação tem guiado a
vida de muitos que se dizem cristãos, que enganosamente acreditam estar
envolvidos com a Igreja, já que não perdem o culto on-line, e crêem também
estarem bem informados já que não falta notícias e estudos bíblicos no seu
canal preferido. No entanto, é importante lembrar que Cristianismo é acima de
tudo relacionamento, e relacionamento aqui envolve aperto de mão, abraço, olhar
no olho, conversar, ouvir e se preocupar com seu irmão. Vale lembrar ainda que
não basta ter informação, mas, qual tipo de informação e o que fazer com ela.
As
redes sociais nos abastecem de informações diariamente, mas, nem sempre o
conteúdo é verdadeiro ou de qualidade. Para o Cristão, o paramento da qualidade
e veracidade é a Palavra de Deus. Nestes últimos dias, a quantidade de artigos,
ensinos e estudos heréticos nas redes sociais tem sido assustador. São textos
aparentemente Cristãos, mas sem o respaldo da Palavra de Deus.
Vemos
também multiplicação de “apóstolos”, “bispos” e “pastores” substituindo a
Palavra de Deus por suas experiências espirituais e ensinos heréticos de forma
impressionante. E o pior que tem havido uma absorção grande desses ensinos por
parte da maioria dos fiéis que buscam novidades com muita avidez. Aliás, esta é
mais uma característica da pós-modernidade.
A
pós-modernidade trouxe avidez por novidades como já foi falado anteriormente.
Há uma compulsiva e obsessiva busca pelo “novo”, tudo isso acompanhado da
crença de que tudo que é antigo é ruim, feio e antiquado. Não é de se admirar
que haja tantas novas “teologias” e “doutrinas”, e o aumento de igrejas para
todos os gostos. Os pastores, num espirito competitivo, tentam inovar cada dia
mais as programações nas Igrejas, sempre trazendo algo novo para agradar o
público. A Palavra de Deus somente, parece não ser mais suficiente para esse
novo público. Para se ter uma noção dessa criatividade, basta ver os títulos
das campanhas que as Igrejas promovem no intuito de atrair público: “Campanha
da queda do gigante”, “Campanha da sagrada família”, “Campanha da quebra da
maldição”, “Campanha da prosperidade financeira,” entre outras, tudo isso
explorando o egoísmo e o individualismo do tempo presente.
Uma
das marcas da pós Modernidade tem sido o aumento do consumismo, da sociedade do
espetáculo e o fascínio pela mercadoria. Aliás, nas redes sociais, os jovens
parecem entender esse fenômeno e se apresentam como produtos, pois, apresentam
a melhor foto, o melhor visual, pois quem não souber se “vender” não terá
visibilidade nesta sociedade. Vemos essa tendência também nos programas
televisivos das mais diversas denominações onde os “testemunhos” são cada qual
mais impactante e espetaculoso que o outro. Outro dia vimos um desses
“apóstolos” vendendo um lenço milagroso com o seu suor. Ele afirmava que um dos
fiéis tinha uma dívida exorbitante em um banco. Este fiel adquiriu um desses
lenços e passou na porta de vidro do banco no qual ele tinha a dívida, e esta,
por sua vez, sumiu completamente, ficando ele assim livre da dívida. Não quero
aqui limitar o poder de Deus, mas também não quero dar o poder baseado no
espetáculo para a promoção de homens, roubando assim a glória de Deus.
Tudo
isso tem nos levado a uma era de incertezas e afetado a saúde do indivíduo,
gerando uma série de doenças bem características da pós-modernidade como a
ansiedade, depressão e a síndrome de pânico. Nunca tivemos tantas opções de
divertimento, e nunca a indústria do entretenimento lucrou tanto. Contudo nunca
vimos tantas pessoas doentes e depressivas, inclusive dentro das Igrejas.
Diante
desse quadro, devemos nos perguntar o que a Igreja deve fazer nessa
pós-modernidade? Reconhecendo que parte da Igreja está contaminada com o
espirito pós-moderno, os que ainda não foram alcançados totalmente devem
continuar o papel de ser igreja que é pregar e viver o Evangelho de Jesus, pois
o Evangelho de Jesus é simples, confiar e crer nas boas novas de Jesus, sem
precisar fazer as trocas que o mundo pós-Moderno tenta impor aos Cristãos.
Não se pode esquecer o
conselho do apostolo Paulo: “E não sede
conformados com este mundo, mas sede transformada pela renovação do vosso
entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita
vontade de Deus. ” (Romanos 12:2).
Ou ainda os conselhos de João: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. ”
( 1 João 5:19).
“Não ameis o mundo, nem o
que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”. (1
João 2:15).
Paulo nos lembra ainda de que: “O qual se deu a si mesmo
por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade
de Deus nosso Pai. ” (Gálatas 1:4). E de que: “O deus deste século cegou
os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do
evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. ” (2 Coríntios 4:4).
Não podemos estranhar o advento da pós-modernidade, tudo
está previsto, tudo está avisado, não nos acostumemos, pois. A Igreja é sempre será independente do sistema em vigor
em no mundo.






