sexta-feira, 21 de julho de 2017

Karl Barth - Sua Teologia (Parte 04)




                                                                                                            Pastor Flávio Neres



Sua Teologia

A teologia de Barth ficou também conhecida por “dialética”. “O termo chama a atenção para a ênfase, característica de Barth, sobre o fato de existir entre Deus e a humanidade uma relação dialética ou de contradição, e não uma de continuidade” McGRATH (2010, p.144).

Dentro de sua Teologia alguns pontos sobressaem-se mais, e destacam-se. Entre eles esta a centralidade de Cristo que é observada em toda a Teologia Barthiana, ele entende que o caminho de interpretação de tudo que se refere a Deus é a sua palavra, e se a palavra é Cristo e Cristo se revela nas escrituras, isso significa que toda a escritura como toda a Teologia deve ser entendida e compreendida a partir da perspectiva do próprio Cristo. De acordo com MONDIN (2003 p. 46): “Cristo constitui o ponto de vista no qual Barth se coloca para entender todo o resto da Revelação”.

É nesta perspectiva, que Barth fala da revelação de Deus. Assim, entende que o homem não pode por qualquer método conhecer a Deus, o “totalmente outro” o que o homem conhece de Deus é o que Ele mesmo revelou. E por esse motivo se originou a controvérsia que separou Barth e Emil Brunner:

Quando Emil Brunner, em Natur Und Gnade (1934) afirmou que, apesar disso, deve haver um ponto de contato do homem natural para a palavra proclamada, a fim de que o homem possa ser influenciado por ela, Barth respondeu com um não categórico. Em uma declaração intitulada Nein (1934), Barth não só se dissociou da teologia natural em sua forma tradicional (a ideia de que o homem possui certo conhecimento de Deus e também uma percepção natural relativa a certo e errado), mas também do conceito de Brunner da existência de um “ponto de contato” HAGGLUND,(2013, p.320, grifos do autor).


Barth entende que embora Deus não possa ser conhecido Ele pode ser reconhecido na palavra, e a palavra de Deus é o próprio Cristo. GRENZ e OLSON (2003, p.82) Laçam luz sobre este pensamento:

[...] o acontecimento singular da História no qual Deus se revelou é o advento de Jesus Cristo. E, em Cristo, Deus revela a si mesmo e não somente algumas informações ou um modo de vida. Para Barth, isso significa que “o Deus eterno deve ser conhecido através de Jesus Cristo e não de qualquer outra forma”.

Cristo se revela nas escrituras e na proclamação d’Ele através das escrituras. Essa é a Teologia Kerigmática. Portanto a importância não é só as escrituras, mas a proclamação das escrituras, dai o conceito de Barth que o dever do Cristão é a proclamação, proclamar o que Deus fala d’Ele mesmo em Cristo, e Cristo é encontrado nas escrituras. “A proclamação assume posição central não apenas como pressuposto de atividade teológica, mas também porque é o ponto em que a palavra de Deus confronta a congregação ouvinte hoje” HAGGLUND (2013, p. 318). No que diz respeito a Deus, as escrituras não podem ser entendida como palavra de Deus, no que diz respeito a Cristo as escrituras são o caminho para se chegar até Ele, e Ele é a verdadeira palavra de Deus. Com relação à palavra de Deus e a Bíblia GRENZ e OLSON esclarecem esta sentença de Barth resumindo assim:

Para Barth, a única fonte de teologia cristã é a Palavra de Deus. Essa Palavra, entretanto, consiste em três formas ou modos. A primeira forma é Jesus Cristo e toda a história dos atos de Deus que levaram até a vida de Jesus e estão relacionados a ela, bem como à sua morte e ressurreição. Essa é a própria revelação, o evangelho em si. A segunda forma consiste nas Escrituras, a testemunha privilegiada de toda a revelação divina. Por fim, a proclamação do evangelho através da igreja constitui a terceira forma. As duas últimas formas são Palavra de Deus apenas num sentido instrumental, pois tornam-se Palavra de Deus quando Deus as utiliza para revelar a Jesus Cristo. GRENZ e OLSON (2003, p.82)

Quando Barth vai construir a sua ideia teológica ele usa do método da dialética para fazer uma distinção clara entre quando se fala de Deus, quanta natureza de Deus e quando se fala de Cristo revelação de Deus, ou a palavra de Deus. Entende Barth que Deus não pode ser limitado a simplesmente uma revelação proporcional, porque é um Deus que age ilimitado.

Não se pode dizer que as escrituras objetivamente seriam a palavra de Deus, e porque se elas fossem objetivamente a única revelação de Deus significaria dizer que Deus limitou-se aquele próprio texto e descaracterizaria aquelas qualidades que nós demos a Deus, de transcendência, ilimitação, de indeterminação, então nós determinaríamos e imanaríamos Deus de uma forma definitiva e absoluta.

Barth rompe com essa ideia, e a Bíblia não pode ser chamada de palavra de Deus, porque Deus e sua palavra se confundem. Embora Barth tenha a compreensão de que a Bíblia não pode ser chamada de Palavra de Deus, mas, que contem a Palavra de Deus, não quer dizer que ele menospreza as Escrituras, pelo contrário GRENZ e OLSON confirmam isso:

[...] Barth tinha a mais alta consideração pela Bíblia, colocando-a sobre todas as autoridades humanas e, ao mesmo tempo, subordinando-a a Jesus Cristo. Ao longo de sua obra A Dogmática da Igreja, ele tratou a Bíblia como se fosse verbalmente inspirada e doutrinariamente infalível. Ele nunca apelou para outra autoridade além das Escrituras ou superior a elas. GRENZ e OLSON (2003, p.83)


Da mesma forma tendo Cristo como o centro de sua teologia, para Barth em sua soteorologia, Cristo é o eternamente eleito e o eternamente condenado. Sendo que toda a humanidade é por ele representada, assim ele absorve o conceito de dupla predestinação, sendo que este termo não quer dizer que uns são salvos e outros condenados, mas:

[...] refere-se, em vez disso, a Cristo, que ao mesmo tempo representa a escolha e a rejeição do homem. O      destino sofrido por Cristo reflete um processo intratrinitário com o qual Deus escolhe o filho, e nele a espécie humana, e que ele rejeitou o filho e permitiu que se submetesse a morte a fim de que pudesse ser ressuscitado para a glória eterna na ressureição e através dela. A predestinação é, pois, uma decisão eterna feita por Deus, significando que os homens – todos os homens – são admitidos a salvação, enquanto que o próprio Deus, na forma do Filho, torna sobre si mesmo a condenação. HÃGGLUND, (2003, p.319).


De acordo com Barth, o que é narrado no Novo Testamento com relação a Jesus Cristo não representa a mensagem da salvação, mas, é apenas uma figura de algo que já ocorreu na esfera eterna num processo dentro da divindade. “Ele encara a morte e a ressureição de Jesus como uma analogia a uma ação que ocorreu na eternidade, de Deus rejeitar e escolher o Filho.” FERREIRA (2003, p. 56)

É bem verdade que a teologia de Barth deteve o liberalismo teológico e fez com que a Igreja voltasse a olhar a Bíblia novamente pelo prisma da fé, mas é verdade também que foram inúmeras as criticas que Barth e sua Neo-ortodoxia receberam.

Mas, o certo é que o método teológico de Barth era forte por sua total dependência a revelação e foi construída independente de sistemas filosóficos e modismos culturais e intelectuais. “Dentre os líderes protestantes no Terceiro Mundo, nenhuma teologia foi tão influente quanto a de Karl Barth” GONZALES, (2004, p.447).

Hitler subiu ao poder em 1933, neste período Barth era professor de teologia em Bonn.

Barth não só pensava diferentemente de seus antigos mestres como também de uma grande parte da igreja na Alemanha, mas, também agia diferentemente, e começou denunciando imediatamente com muito vigor tanto os erros do nazismo quanto os erros da "Igreja Evangélica da Nação Alemã", que iludida vibrou com a ascensão de Hitler ao poder.

Conforme, MONDIN (2003 p.41) no início de julho de 1933, Barth, juntamente com Thurneysen, criaram uma nova revista, intitulada Theologische Existenz Heute (A Existência Teológica Hoje), esta nova revista tornou-se um instrumento e um canal do verdadeiro protestantismo que resistia e agora tomava o nome de igreja confessante e bravamente lutava contra as atividades nazistas, e nomes como, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemoeller, levantaram firme resistência da Igreja Evangélica Alemã contra as atrocidades e injustiças cometidas pelo nazismo.  

Em Barmen, em 31 de maio de 1934, Barth e Niemoeller redigiram um dos documentos mais simbólicos da história da Igreja Evangélica, que ficou conhecido com o nome de "Confissão de fé de Barmen".

Este documento que desafiava o nazismo e a submissão ao seu grande líder, ler-se entre outras coisas o firme propósito de mais uma vez enaltecer e seguir a palavra de Deus. Assim transcreve Mondin:

Segundo o testemunho das Escrituras, Jesus Cristo é a única Palavra de Deus. Unicamente a ela devem os ouvir e som ente a ela devemos confiança e obediência na vida e na morte. Repudiam os a falsa doutrina pela qual a Igreja poderia e deveria reconhecer, com o fonte de sua mensagem, além e ao lado dessa única Palavra de Deus, outros eventos, outras forças, personalidades e verdades como revelações de Deus. MONDIN (2003 p 42)

Como se era de esperar, isso trouxe muitas retaliações das autoridades do Reich, e no ano de 1935, Barth foi expulso da Alemanha e todos os seus títulos acadêmicos cancelados. Este tempo ele ficou em sua cidade natal, Basiléia o que lhe impulsionou a ter uma maior produção literária e a continuar sua luta contra o nazismo, MONDIN (2003, Apud, CASALIS, 1967, P.38) diz que Barth:

Empenha-se menos na ação, dispõe de maior tempo, escreve em ritmo intenso, publica livros e artigos para revistas de temas religiosos variados, prepara conferências e sermões e lança os fundamentos da resistência espiritual ao nazismo em todo o mundo. A objetividade, a proximidade e a autoridade de Barth, exilado na própria pátria e frequentemente suspeito para o seu próprio governo, tornam sua atividade nesse período não menos preciosa do que a desenvolvida em Bonn.


Sem duvida alguma a obra de Barth nos mais distintos períodos enriqueceu o meio teológico e acadêmico e influenciou e ainda influencia gerações, e é com muita propriedade que GONZALES (2004, p.447) assim resume a obra de Barth:

Barth desenvolveu uma teologia que foi além das restrições da ortodoxia sem, por conseguinte, abandonar qualquer de seus temas tradicionais. Semelhantemente, sua teologia evitou a extrema maleabilidade do Liberalismo sem por isso rejeitar as conquistas dos estudos históricos, do criticismo bíblico e de outros desenvolvimentos modernos. Isto levou à recuperação de muito da herança do período Patrístico e da Reforma. Também significou que Barth foi amplamente lido e respeitado pelos teólogos católicos contemporâneos, e que sua influência pode ser vista em muito do pensamento católico moderno. GONZALES (2004, p.447).

Karl Barth faleceu em dezembro de 1969, mas, seus ensinos continuam a ser propagados por sua extensa e valiosa obra escrita como também por seus numerosos discípulos.


Neste primeiro capítulo, viu-se a vida e obra de Karl Barth. Observou-se também os principais pontos de sua teologia. No próximo capitulo será apresentado o neopentecostalismo e a ênfase de suas pregações, como também seu distanciamento do evangelho genuíno.

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