quarta-feira, 26 de julho de 2017

A IGREJA E A PÓS-MODERNIDADE



                                                                                                    Pastor Flávio Neres



Vivemos no mundo da “globalização”, no mundo da pós-modernidade, e isso tem trazido uma mudança de conceitos, valores e comportamentos para a humanidade. Podemos afirmar que os valores da pós-modernidade têm confrontado e até mesmo influenciado a igreja, já que a pós-modernidade trouxe consigo a destruição dos referenciais que vinham norteando o pensamento estabelecido até então. Como exemplo desta transformação podemos ver que o pensamento pós-moderno afirma que não há uma verdade absoluta, confrontando diretamente assim a fé cristã na Bíblia e nos dogmas cristãos.
Para que possamos fazer uma análise mais detalhada de todo esse processo de influenciação da igreja, se faz necessário conhecermos algumas das características da pós-modernidade. Embora o termo “pós-modernidade” haja controvérsias quanto ao seu significado, é certo que ele começou a ter um uso mais significativo no final do século XX, influenciado especialmente com o desencanto das sociedades ocidentais com as ideologias. O filósofo francês François Lyotard caracteriza a pós-modernidade como uma decorrência da morte das "grandes narrativas" totalizantes, fundadas na crença no progresso e nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.
Estabeleceu-se, logo depois da segunda guerra mundial, uma crise nas sociedades, principalmente com a chamada crise dos “ISMOS” onde o Socialismo e o Capitalismo não responderam aos anseios das sociedades, e deixaram de polarizar as esperanças do povo. Agora estas sociedades estavam sem suas ideologias e utopias, ficaram órfãs de ideais e se indagavam quais os projetos futuros.
E aqui se destacam algumas características da pós-modernidade e as consequentes influencias na Igreja. Se não tem mais projeto futuro a tendência é: valorizar o instantâneo, o rápido, momentâneo, enfim se torna uma sociedade que o sociólogo Polonês Zygmunt Bauman definiu como líquida, por não encontrar mais um sentido profundo e sólido. Isso influenciou diretamente nos relacionamentos, onde percebemos as famílias com vínculos familiares leves. Já nos jovens, o “ficar” tem sido a regra, e não mais um compromisso de namoro, pois tudo passa a ser superficial.
Na Igreja, tem-se vivenciado isso, onde fiéis têm compromissos superficiais com Jesus e com a própria Igreja, já não há o engajamento verdadeiro, e nem o compromisso com os valores da Palavra de Deus. Hoje há milhares de crentes que são denominados de “desingrejados”, pois crêem que para ter um relacionamento com Deus não precisam da Igreja, mas como fazer parte do corpo, fora do corpo? Como desenvolver os dons coletivos vivendo no individual? Muitos dos que frequentam a Igreja não querem compromissos mais sérios, não querem se “envolver”. Ser um frequentador é o suficiente. Isso faz parte do pensamento pós-moderno.
Esse “espirito” Pós-moderno trouxe também a ultra individualização, fazendo com que as pessoas tenham uma vida virtual com a popularização das redes sociais. Tudo é virtual. Há um distanciamento físico entre as pessoas. Há comunicação, mas, sem intimidade, e isso tem criado uma falsa sensação de ser popular, já que as pessoas acreditam ter muitos amigos. Essa superficialidade envolve também os acontecimentos, as informações e o engajamento social, onde se acredita estar participando de tudo, onde se recebe e se passa uma avalanche de informações, onde todo mundo se acha conhecedor de algum assunto e participante de alguma coisa.
Essa sensação de participação, de engajamento social e ter a informação tem guiado a vida de muitos que se dizem cristãos, que enganosamente acreditam estar envolvidos com a Igreja, já que não perdem o culto on-line, e crêem também estarem bem informados já que não falta notícias e estudos bíblicos no seu canal preferido. No entanto, é importante lembrar que Cristianismo é acima de tudo relacionamento, e relacionamento aqui envolve aperto de mão, abraço, olhar no olho, conversar, ouvir e se preocupar com seu irmão. Vale lembrar ainda que não basta ter informação, mas, qual tipo de informação e o que fazer com ela.
As redes sociais nos abastecem de informações diariamente, mas, nem sempre o conteúdo é verdadeiro ou de qualidade. Para o Cristão, o paramento da qualidade e veracidade é a Palavra de Deus. Nestes últimos dias, a quantidade de artigos, ensinos e estudos heréticos nas redes sociais tem sido assustador. São textos aparentemente Cristãos, mas sem o respaldo da Palavra de Deus.
Vemos também multiplicação de “apóstolos”, “bispos” e “pastores” substituindo a Palavra de Deus por suas experiências espirituais e ensinos heréticos de forma impressionante. E o pior que tem havido uma absorção grande desses ensinos por parte da maioria dos fiéis que buscam novidades com muita avidez. Aliás, esta é mais uma característica da pós-modernidade.
A pós-modernidade trouxe avidez por novidades como já foi falado anteriormente. Há uma compulsiva e obsessiva busca pelo “novo”, tudo isso acompanhado da crença de que tudo que é antigo é ruim, feio e antiquado. Não é de se admirar que haja tantas novas “teologias” e “doutrinas”, e o aumento de igrejas para todos os gostos. Os pastores, num espirito competitivo, tentam inovar cada dia mais as programações nas Igrejas, sempre trazendo algo novo para agradar o público. A Palavra de Deus somente, parece não ser mais suficiente para esse novo público. Para se ter uma noção dessa criatividade, basta ver os títulos das campanhas que as Igrejas promovem no intuito de atrair público: “Campanha da queda do gigante”, “Campanha da sagrada família”, “Campanha da quebra da maldição”, “Campanha da prosperidade financeira,” entre outras, tudo isso explorando o egoísmo e o individualismo do tempo presente.
Uma das marcas da pós Modernidade tem sido o aumento do consumismo, da sociedade do espetáculo e o fascínio pela mercadoria. Aliás, nas redes sociais, os jovens parecem entender esse fenômeno e se apresentam como produtos, pois, apresentam a melhor foto, o melhor visual, pois quem não souber se “vender” não terá visibilidade nesta sociedade. Vemos essa tendência também nos programas televisivos das mais diversas denominações onde os “testemunhos” são cada qual mais impactante e espetaculoso que o outro. Outro dia vimos um desses “apóstolos” vendendo um lenço milagroso com o seu suor. Ele afirmava que um dos fiéis tinha uma dívida exorbitante em um banco. Este fiel adquiriu um desses lenços e passou na porta de vidro do banco no qual ele tinha a dívida, e esta, por sua vez, sumiu completamente, ficando ele assim livre da dívida. Não quero aqui limitar o poder de Deus, mas também não quero dar o poder baseado no espetáculo para a promoção de homens, roubando assim a glória de Deus.
Tudo isso tem nos levado a uma era de incertezas e afetado a saúde do indivíduo, gerando uma série de doenças bem características da pós-modernidade como a ansiedade, depressão e a síndrome de pânico. Nunca tivemos tantas opções de divertimento, e nunca a indústria do entretenimento lucrou tanto. Contudo nunca vimos tantas pessoas doentes e depressivas, inclusive dentro das Igrejas.
Diante desse quadro, devemos nos perguntar o que a Igreja deve fazer nessa pós-modernidade? Reconhecendo que parte da Igreja está contaminada com o espirito pós-moderno, os que ainda não foram alcançados totalmente devem continuar o papel de ser igreja que é pregar e viver o Evangelho de Jesus, pois o Evangelho de Jesus é simples, confiar e crer nas boas novas de Jesus, sem precisar fazer as trocas que o mundo pós-Moderno tenta impor aos Cristãos.
Não se pode esquecer o conselho do apostolo Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformada pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. ” (Romanos 12:2).
Ou ainda os conselhos de João: “Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno. ”1 João 5:19).
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”. (1 João 2:15).
Paulo nos lembra ainda de que: “O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai. ” (Gálatas 1:4). E de que: “O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. ” (2 Coríntios 4:4).
Não podemos estranhar o advento da pós-modernidade, tudo está previsto, tudo está avisado, não nos acostumemos, pois. A Igreja é  sempre será independente do sistema em vigor em no mundo.


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