quinta-feira, 20 de julho de 2017

Karl Barth - O rompimento com a Teologia Liberal (Parte 02)



                                                                                                       Pastor Flávio Neres



O rompimento com a Teologia Liberal
Enquanto Barth estava mergulhado com as causas sociais e seu pequeno rebanho, a primeira grande guerra e seus males trazia ao mundo uma gravíssima crise. E junto com a grande guerra lhe chegaram também os desapontamentos e decepções como também a realidade lhe era despertada, pois, seus antigos mestres aqueles dos quais tinha bebido das fontes da teologia liberal, estavam completamente envolvidos e em concordância ao pensamento militarista do imperador alemão.

Assim é colocada por GRENZ e OLSON esta decepção que contribuiu para sua decisão de romper com o liberalismo:

Em agosto de 1914, ele leu a publicação de uma declaração realizada por noventa e três intelectuais alemães que apoiavam a política de guerra do imperador Wilhelm. Entre eles estavam quase todos os seus professores de teologia, os quais, até então, ele havia honrado profundamente. O apoio que ofereceram ao imperialismo alemão levou Barth a crer que, se podiam ceder tão facilmente à ideologia de guerra, tinha de haver algo de terrivelmente errado na teologia deles. Desiludido pela conduta de seus mestres, Barth concluiu que não podia mais “aceitar suas éticas e dogmas, sua exegese bíblica, sua interpretação da História”. Para ele, toda a teologia liberal do século 19 não tinha futuro e, assim, ele passou a dedicar seu considerável (e até então oculto) talento teológico a destruí-la. GRENZ e OLSON (2003, p.77)

É importante ressaltar que na teologia liberal que boa parte destes intelectuais defendiam trouxe uma exagerada introdução do racionalismo dentro da igreja, fazendo com que a teologia fosse uma teologia da academia e não da comunidade cristã, sendo assim essa teologia trouxe graves consequências no seio da igreja.
Foi a época em que surgiu o método histórico-critico de interpretação da Bíblia, negando a inspiração divina de seus livros e tratando-a como mero registro humano, falível e contraditório, da fé de Israel e dos primeiros cristãos. A confiança na Bíblia foi tremendamente abalada. NICODEMUS (2015, p.108)


Nesta época surgem grandes teólogos que desenvolvem a sua teologia centrada na razão, um dele é Rudolf Bultmann que embora tenha rompido com o liberalismo Teológico posteriormente, ainda influenciado por este pensamento, apresenta o seu método de interpretação das escrituras conhecido como “Desmitologização”. De acordo com NICODEMUS (2015, p.58) Bultmann cria que deveria se interpretar a Bíblia retirando os mitos, somente assim se compreenderia a realidade que há por trás deles, e que poderiam ser explicados por meios naturais. Dai se entendia que os milagres narrados na Bíblia não ocorrem verdadeiramente, mas necessitam ser “desmitologizados” para se compreender a verdade que há por trás deles. Isso aumentou crise na igreja, já que os milagres narrados na Bíblia e inclusive a ressureição de Jesus tem um grande significado para a igreja.
De acordo com Bultmann, pessoas modernas não podem mais aceitar a estrutura mitológica do Novo Testamento. Nós não vivemos mais em um universo de três camadas, habitado por espíritos. Não cremos mais em milagres, mas estamos convencidos de que todos os eventos podem ser explicados por meio de causas naturais. O Novo Testamento fala de um “Espírito” e de sacramentos que não têm significado para nós. A teoria que a morte é punição para o pecado é contrária a todo pensamento moderno. A noção que todos somos salvos por meio da morte de uma pessoa é contrária ao nosso altíssimo senso moral. E a ressurreição física de Jesus também está infectada com dificuldades. GONZALES, (2004, p.449).


Segundo, NICODEMUS (2015, p.58): “Esta é a velha proposta do liberalismo: rever totalmente o cristianismo e substitui-lo por uma religião que seja racional e cientifica”.

É neste cenário que surge Barth e sua Teologia Dialética, rompendo com o Liberalismo Teológico e apresentando o seu conceito querigmático sobre a revelação de Deus na palavra escrita e na pregação da igreja. Sua Teologia faz o retorno de volta às escrituras e a Deus na pessoa de seu filho Jesus, trazendo a igreja de volta a uma fé contemplativa, e de uma relação subjetiva do ser humano com Deus.
No caso de Barth, isto estava intimamente conectado com sua convicção crescente de que existe um conteúdo na Palavra de Deus. Não é meramente uma questão de um encontro. Há também um “Logos”, uma racionalidade, de forma que a Palavra nos leva para sua própria compreensão. Isto significava tanto que a filosofia existencialista, com sua ênfase no momento, tinha que ser deixada para trás, quanto que a Teologia podia e devia se mover na direção de buscar entender a Palavra de Deus e elucidar suas implicações, não baseada no Existencialismo, ou em qualquer outra filosofia, mas baseada na “lógica da fé”. GONZALES (2004, p.441 e 442).


Barth tira o foco que estava totalmente no homem e sua razão e volta-se novamente para Deus, a teologia agora é o estudo da palavra de Deus e não mais de uma experiência religiosa ou de uma filosofia humana. A bíblia não é mais apenas um livro comum com alguns relatos históricos que precisam ser examinados pela razão como criam os liberais, Para Barth a bíblia não é um livro simplesmente histórico, mas, que contem a palavra de Deus. Assim nos informa Ferreira sobre este entendimento de Barth:

Argumentava que estas grandes verdades não podem ser construídas a partir da experiência ou da razão, mas devem ser recebidas da revelação de Deus, numa atitude de obediência. O que estava em curso era uma revelação no método teológico, uma teologia do “alto”, para substituir a antiga teologia “de baixo” centralizada no ser humano. FERREIRA ( 2003, P.33)



Barth começou então um período frutífero de produção acadêmica e deixou um grande legado com sua vastíssima obra, firmando o seu pensamento teológico, que será visto agora.

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