Pr. Flávio Neres
Patativa do Assaré foi um poeta
popular cearense, que também era cantor, compositor e repentista. Nascido em
1909 no município de Assaré, morreu em 2002. Era filho dos agricultores Pedro
Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Ainda criança, ficou cego do olho
direito. Ficou órfão de pai aos oito anos de idade e já neste tempo começou a
trabalhar como agricultor no cultivo da terra. Não teve oportunidade de uma educação
mais refinada. Só frequentou a escola por quatro meses onde aprendeu, embora
precariamente, a ler e escrever. Logo se apaixonou pela poesia e com uma
linguagem simples, com uma sensibilidade e inspiração excepcional, começou a
fazer repentes. Ele mesmo falou dessa sua simplicidade em um de seus versos:
Meus
versos é como semente
Que nasce
arriba do chão;
Não tenho
estudo nem arte,
A minha
rima faz parte
Das obras
da criação
Patativa
cantou o sertão em verso e prosa. Com olhar de poeta e coração de sertanejo
cantou o sofrimento de seu povo diante da seca, mas, também cantou a alegria do
povo diante da chuva que caia molhando o roçado, com um olhar refinado mesmo
sem uma formação acadêmica ele soube ler a alma humana e suas necessidades. Sem
recursos linguísticos cantou a fauna e a flora de sua região e toda a beleza de
sua terra. Assim ele retrata no poema "Meu Livro":
Tudo
segue a orde santa
sem havê
nenhuma fáia
inquanto
a cigarra canta
a
furmiguinha trabáia
bria o
lindo vagalume
faz a
aranha o seu tissume
e o passo
beija-fulô
voa pra
frente e pra trás
e o certo
é que todos faz
aquilo
que Deus mandô.
Patativa
tinha também uma visão social e denunciava por meio de sua poesia a exploração
do homem do campo pelos grandes latifundiários, como também a esperteza do
político que nas eleições chegava cedo na choupana do agricultor em busca do
voto.
O poeta
popular que cantou a vida e a alma de seu povo com sensibilidade, poesia e
beleza, publicou sua obra com muita dificuldade e quase não teve apoio no
começo. Morreu pobre e quase esquecido pela mídia e os órgãos culturais do
Ceará e do Brasil.
Me dói na
alma hoje ver o incentivo dado pelo governo e à mídia a quem não tem nada a
oferecer poeticamente à nossa gente. Me dói na alma quando vejo o dinheiro de
nossos impostos servirem de mola propulsora à idiotização nacional, quando vejo
que Mc Guimê recebeu 516 mil reais (mais de meio milhão) da Lei Rouanet para a
produção de um DVD de Funk, e que canta pérolas como esta:
A ideia é
assim, se ele não tá ela corre pra mim
Se chifre
fosse flor, sua cabeça era um jardim
Ela já
quer fuder com o Guimê e com o Robertinho
Se chifre
fosse flor, sua cabeça era um jardim
De igual
maneira o artista Tico Santa Cruz e sua banda “Os Detonautas” receberam mais de
1 milhão de reais para a sua turnê. Esses dois são somente um pequeno exemplo
em meio a milhares de casos bizarros como esses, e isso é triste. Sem falar nas
Anitas e Ludimilas da vida que não saem da tela da TV, com suas músicas sem
letras, sem poesias, que não dizem nada com nada, somente trazem uma
apresentação carregadas de sexualidade e que servem simplesmente para
vulgarizar a imagem feminina. A música “adultério” da Anita retrata muito bem
isso:
Sabe
esses dias que tu acorda de ressaca?
Muito louco,
doidão, doidão
Sua roupa
tá cheia de lama
E a
cachorra tá na cama,
E foi o
dia que a orgia tomou conta de mim
Antes
durante e depois É pressão até o fim...
Na 4 por
4 a gente zoa Whisky e Redbull,
Quanta
mulher boa
O p...
fica duro
E o
bagulho tá sério
Vai rolar
um adultério...
Panram,
panraparam panram, Paparam panraparam...
Panram,
panraparam panram, Paparam panraparam...
Que
Brasil nós teremos amanhã? Como será o cidadão de amanhã que hoje são os nossos
jovens? Sabemos que, por trás de tudo isso, há uma ação ideológica que trabalha
visando obter dividendos políticos, mesmo tendo que, para isso, nossos jovens
sejam idiotizados.
Não é à
toa que o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) de 2017 mostrou que ao
final do ensino médio, quando deixam a escola, sete a cada dez estudantes não
aprendem nem mesmo o considerado básico em português. A educação em nosso país
é uma nave à deriva, e isso se deve em grande parte as prioridades de
investimentos do governo que já falei anteriormente.
Enquanto
não sairmos deste marasmo, entendendo que os valores morais, culturais e
espirituais não podem ser demolidos e substituídos por lixo “cultural” que nada
acrescentam na formação humana, continuaremos com uma nação esfacelada
culturalmente. Precisamos, com urgência, nos desintoxicar desse lixo, dessa
diarreia mental e, para isso, se faz necessário se prestigiar mais os poetas
regionais que cantam as belezas da natureza e as aflições da alma humana. Por
isso, precisamos mais de Patativas e menos de Anitas.

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