quarta-feira, 5 de setembro de 2018

De Patativa a MC Guimê, como sobreviver?


                                                                                                                   
                                                                                                                     Pr. Flávio Neres





Patativa do Assaré foi um poeta popular cearense, que também era cantor, compositor e repentista. Nascido em 1909 no município de Assaré, morreu em 2002. Era filho dos agricultores Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Ainda criança, ficou cego do olho direito. Ficou órfão de pai aos oito anos de idade e já neste tempo começou a trabalhar como agricultor no cultivo da terra. Não teve oportunidade de uma educação mais refinada. Só frequentou a escola por quatro meses onde aprendeu, embora precariamente, a ler e escrever. Logo se apaixonou pela poesia e com uma linguagem simples, com uma sensibilidade e inspiração excepcional, começou a fazer repentes. Ele mesmo falou dessa sua simplicidade em um de seus versos:

Meus versos é como semente
Que nasce arriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação

Patativa cantou o sertão em verso e prosa. Com olhar de poeta e coração de sertanejo cantou o sofrimento de seu povo diante da seca, mas, também cantou a alegria do povo diante da chuva que caia molhando o roçado, com um olhar refinado mesmo sem uma formação acadêmica ele soube ler a alma humana e suas necessidades. Sem recursos linguísticos cantou a fauna e a flora de sua região e toda a beleza de sua terra. Assim ele retrata no poema "Meu Livro":

Tudo segue a orde santa
sem havê nenhuma fáia
inquanto a cigarra canta
a furmiguinha trabáia
bria o lindo vagalume
faz a aranha o seu tissume
e o passo beija-fulô
voa pra frente e pra trás
e o certo é que todos faz
aquilo que Deus mandô.

Patativa tinha também uma visão social e denunciava por meio de sua poesia a exploração do homem do campo pelos grandes latifundiários, como também a esperteza do político que nas eleições chegava cedo na choupana do agricultor em busca do voto.
O poeta popular que cantou a vida e a alma de seu povo com sensibilidade, poesia e beleza, publicou sua obra com muita dificuldade e quase não teve apoio no começo. Morreu pobre e quase esquecido pela mídia e os órgãos culturais do Ceará e do Brasil.
Me dói na alma hoje ver o incentivo dado pelo governo e à mídia a quem não tem nada a oferecer poeticamente à nossa gente. Me dói na alma quando vejo o dinheiro de nossos impostos servirem de mola propulsora à idiotização nacional, quando vejo que Mc Guimê recebeu 516 mil reais (mais de meio milhão) da Lei Rouanet para a produção de um DVD de Funk, e que canta pérolas como esta:

A ideia é assim, se ele não tá ela corre pra mim
Se chifre fosse flor, sua cabeça era um jardim
Ela já quer fuder com o Guimê e com o Robertinho
Se chifre fosse flor, sua cabeça era um jardim

De igual maneira o artista Tico Santa Cruz e sua banda “Os Detonautas” receberam mais de 1 milhão de reais para a sua turnê. Esses dois são somente um pequeno exemplo em meio a milhares de casos bizarros como esses, e isso é triste. Sem falar nas Anitas e Ludimilas da vida que não saem da tela da TV, com suas músicas sem letras, sem poesias, que não dizem nada com nada, somente trazem uma apresentação carregadas de sexualidade e que servem simplesmente para vulgarizar a imagem feminina. A música “adultério” da Anita retrata muito bem isso:
Sabe esses dias que tu acorda de ressaca?
Muito louco, doidão, doidão
Sua roupa tá cheia de lama
E a cachorra tá na cama,
E foi o dia que a orgia tomou conta de mim
Antes durante e depois  É pressão até o fim...
Na 4 por 4 a gente zoa Whisky e Redbull,
Quanta mulher boa
O p... fica duro
E o bagulho tá sério
Vai rolar um adultério...
Panram, panraparam panram, Paparam panraparam...
Panram, panraparam panram, Paparam panraparam...

Que Brasil nós teremos amanhã? Como será o cidadão de amanhã que hoje são os nossos jovens? Sabemos que, por trás de tudo isso, há uma ação ideológica que trabalha visando obter dividendos políticos, mesmo tendo que, para isso, nossos jovens sejam idiotizados.
Não é à toa que o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) de 2017 mostrou que ao final do ensino médio, quando deixam a escola, sete a cada dez estudantes não aprendem nem mesmo o considerado básico em português. A educação em nosso país é uma nave à deriva, e isso se deve em grande parte as prioridades de investimentos do governo que já falei anteriormente.
Enquanto não sairmos deste marasmo, entendendo que os valores morais, culturais e espirituais não podem ser demolidos e substituídos por lixo “cultural” que nada acrescentam na formação humana, continuaremos com uma nação esfacelada culturalmente. Precisamos, com urgência, nos desintoxicar desse lixo, dessa diarreia mental e, para isso, se faz necessário se prestigiar mais os poetas regionais que cantam as belezas da natureza e as aflições da alma humana. Por isso, precisamos mais de Patativas e menos de Anitas.


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