A responsabilidade dos
mais jovens para com os mais idosos é um dos pilares da família. Estava eu,
cumprindo esse princípio com minha sogra, quando a levei, juntamente com minha
esposa, a um hospital público para um exame de endoscopia pré-agendada pelo SUS.
Dois dias antes, já havia também, levado meu pai para seus exames de rotina. Ao
chegar com uma hora de antecedência, confirmamos a consulta com uma
recepcionista bem simpática, foi o meu primeiro espanto, já que as informações
com relação ao atendimento de saúde pelo SUS não tem “boa fama”.
Após a confirmação da
consulta, fomos informados que o médico se atrasaria um pouco, e que
aguardássemos ser chamados, procuramos umas cadeiras e ficamos no aguardo. Como
bom observador que sou, aguardei observando o movimento das pessoas. Era um vai
e vem incessante. Como há pessoas necessitadas que precisam do SUS!
Logo mais à frente, a
minha direita, um senhor deitado numa maca também aguardava, observei que embaixo
da maca um grande cilindro de oxigênio delatava o estado grave do paciente. Ao
seu lado, uma jovem enfermeira em pé escorada na maca, estava em outro mundo,
com o celular na mão, enquanto o senhor buscava ar para seus combalidos
pulmões, a jovem enfermeira se abastecia das últimas novidades das redes
sociais.
Uma das salas está em
reforma, e o barulha da maquina cortando cerâmica é irritante.
Vez por outra passam alguns
funcionários do hospital em suas batas brancas, algumas das mulheres de salto
alto, com olhares de superioridade, como se a necessidade das pessoas que ali estavam,
dependessem unicamente delas.
Chegamos as 10:00hs, a
consulta estava marcada para as 11:00hs e já eram 11:40hs, minha sogra em jejum
está tristonha no canto da cadeira, mas parece conformada com a demora. O número
de pessoas que chegam só aumenta. Bem como o calor também. O ruido das vozes
tomam toda a dependência do hospital, vez por outra, dou uma folheada no livro
que levei para “passar o tempo”, mas não consigo me concentrar.
Finalmente as 12:20hs
vejo um jovem de óculos entrando na sala designada para o exame e minhas
suspeitas são confirmadas por uma moça sentada a duas cadeiras depois da minha:
--- O médico chegou!
Fico animado já que a
minha sogra por ter oitenta e dois anos, com certeza será a primeira a ser
chamada, por ser “prioridade” por conta da idade. Todos os olhos estão voltados
para a sala quatro, e a expectativa aumenta quando a porta se abre e a
atendente sai com uma prancheta na mão, chama uma jovem que já está em pé
próximo a porta, cochicha algo e encaminha para dentro da sala. Alguém comenta.
--- Só pode ser peixada
de vereador!
Decepcionados ficamos no
aguardo, a fome aumenta, minha sogra já fica um pouco inquieta na cadeira. A
máquina continua na sua jornada estridente de partir cerâmicas. A atendente sai
novamente e agora encaminha um senhor que estava numa cadeira de rodas. Prioridade
das prioridades. Passados mais alguns minutos, finalmente minha sogra é chamada
e entra. Pouco tempo depois que ela entrou, o médico abre a porta e com olhar
de emergência olha de um lado para o outro, não achando o que procura, anda
apressadamente até a pequena recepção, já com o celular na mão.
--- Cadê o maqueiro?
Pergunta.
A recepcionista percebendo
a urgência, se levanta e corre em busca do maqueiro. O médico está falando com
alguém no celular, balança a cabeça em sinal de desaprovação, vai até o
corredor, olha novamente com preocupação de um lado para o outro com as mãos na
cintura, e entra apressadamente novamente na sala. Diante da movimentação de
pessoas, ficamos um pouco preocupados, afinal de contas a mãe de minha esposa
estava lá dentro daquela sala, no entanto logo alguém informa:
--- É o senhor da cadeira
de rodas.
Os maqueiros chegam
correndo com as atendentes atrás, junto seguem algumas pessoas de batas verdes,
um deles falando em um rádio de comunicação. Entram na sala. Minha esposa
comenta:
--- Esta sala só pode ser
muito grande para caber um monte de gente desses.
Todos os olhares estão
voltados para a sala, quando sai os maqueiros e todos que entraram com ele conduzindo
o cadeirante. A porta da sala quatro se fecha novamente e aparentemente tudo
volta a normalidade, se não fosse o burburinho ocasionado pelos últimos
acontecimentos.
Passados alguns minutos
um guarda municipal acompanhado de outros dois, se posiciona na parte central
do corredor e fala com uma potente voz, quase gritando:
--- Pessoal, boa tarde!
E recebe um sonoro boa
tarde de volta.
--- Pessoal, se vocês não
fizerem silêncio, não vão conseguir ouvir quando chamarem vocês. Por isso, peço
que fiquem em silêncio, para depois não estarem perguntando se já foram
chamados. Obrigado.
O burburinho diminui, e
parece aumentar o som da máquina na obra. Comento com minha esposa:
---- Será que esse
pessoal não almoça?
Já são mais de duas horas
da tarde quando a porta da sala quatro se abre e a atendente chama:
--- Os acompanhantes da
dona Maria do Carmo!
Minha esposa se levanta
de um pulo e se dirige até a atendente que com as mãos amparava a minha sogra,
conversa algo com ela e vem lentamente de braços dados até a cadeira novamente,
e já vai me atualizando:
--- A moça avisou que
temos que esperar logo pelo laudo.
--- Mas, D. Maria está em
jejum até agora! Argumento.
--- Pois é. Você não quer
ver se aí por fora não vende uma água de coco?
É exatamente o que faço.
Vou até um pequeno quiosque do lado de fora do hospital que vende lanche, e na
falta da água de coco, trago um copo de suco de goiaba. Dona Maria bebe de um
só gole. Eu e Rosinha, minha esposa, também estamos com fome. Volto a folhear o
livro, e o tempo não passa. Nossos olhos continuam postados na sala quatro. Uma
senhora que está ao nosso lado compreendendo nossa ansiedade comenta:
--- Isso é muito errado,
a senhora deste de manhã sem comer nada, devia entregar esse laudo outro dia.
--- Mas ela disse que tem
que esperar! Lamenta Rosinha.
Finalmente a moça sai com
duas folhas na mão, da jovem que entrou primeiro e de D. Maria. Eu que já estou
em pé corro para pegar o bendito “prêmio”.
--- Vocês agora fiquem
sentadas ali fora, que é mais ventilado, que eu vou buscar o carro, disse.
Enquanto me dirijo para
buscar o carro vou conversando comigo mesmo, e diante do sofrimento que foi
para se fazer um simples exame de endoscopia pelo SUS, lembro-me que eu também
não tenho plano de saúde e que sou um potencial cliente do SUS. Faço uma breve
oração para que Deus me de muita saúde e pego o carro para buscar minha sogra e
minha esposa.

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