sábado, 13 de novembro de 2021

Um dia na fila do SUS

 



A responsabilidade dos mais jovens para com os mais idosos é um dos pilares da família. Estava eu, cumprindo esse princípio com minha sogra, quando a levei, juntamente com minha esposa, a um hospital público para um exame de endoscopia pré-agendada pelo SUS. Dois dias antes, já havia também, levado meu pai para seus exames de rotina. Ao chegar com uma hora de antecedência, confirmamos a consulta com uma recepcionista bem simpática, foi o meu primeiro espanto, já que as informações com relação ao atendimento de saúde pelo SUS não tem “boa fama”.

Após a confirmação da consulta, fomos informados que o médico se atrasaria um pouco, e que aguardássemos ser chamados, procuramos umas cadeiras e ficamos no aguardo. Como bom observador que sou, aguardei observando o movimento das pessoas. Era um vai e vem incessante. Como há pessoas necessitadas que precisam do SUS!

Logo mais à frente, a minha direita, um senhor deitado numa maca também aguardava, observei que embaixo da maca um grande cilindro de oxigênio delatava o estado grave do paciente. Ao seu lado, uma jovem enfermeira em pé escorada na maca, estava em outro mundo, com o celular na mão, enquanto o senhor buscava ar para seus combalidos pulmões, a jovem enfermeira se abastecia das últimas novidades das redes sociais.

Uma das salas está em reforma, e o barulha da maquina cortando cerâmica é irritante.

Vez por outra passam alguns funcionários do hospital em suas batas brancas, algumas das mulheres de salto alto, com olhares de superioridade, como se a necessidade das pessoas que ali estavam, dependessem unicamente delas.

Chegamos as 10:00hs, a consulta estava marcada para as 11:00hs e já eram 11:40hs, minha sogra em jejum está tristonha no canto da cadeira, mas parece conformada com a demora. O número de pessoas que chegam só aumenta. Bem como o calor também. O ruido das vozes tomam toda a dependência do hospital, vez por outra, dou uma folheada no livro que levei para “passar o tempo”, mas não consigo me concentrar.

Finalmente as 12:20hs vejo um jovem de óculos entrando na sala designada para o exame e minhas suspeitas são confirmadas por uma moça sentada a duas cadeiras depois da minha:

--- O médico chegou!

Fico animado já que a minha sogra por ter oitenta e dois anos, com certeza será a primeira a ser chamada, por ser “prioridade” por conta da idade. Todos os olhos estão voltados para a sala quatro, e a expectativa aumenta quando a porta se abre e a atendente sai com uma prancheta na mão, chama uma jovem que já está em pé próximo a porta, cochicha algo e encaminha para dentro da sala. Alguém comenta.

--- Só pode ser peixada de vereador!

Decepcionados ficamos no aguardo, a fome aumenta, minha sogra já fica um pouco inquieta na cadeira. A máquina continua na sua jornada estridente de partir cerâmicas. A atendente sai novamente e agora encaminha um senhor que estava numa cadeira de rodas. Prioridade das prioridades. Passados mais alguns minutos, finalmente minha sogra é chamada e entra. Pouco tempo depois que ela entrou, o médico abre a porta e com olhar de emergência olha de um lado para o outro, não achando o que procura, anda apressadamente até a pequena recepção, já com o celular na mão.

--- Cadê o maqueiro? Pergunta.

A recepcionista percebendo a urgência, se levanta e corre em busca do maqueiro. O médico está falando com alguém no celular, balança a cabeça em sinal de desaprovação, vai até o corredor, olha novamente com preocupação de um lado para o outro com as mãos na cintura, e entra apressadamente novamente na sala. Diante da movimentação de pessoas, ficamos um pouco preocupados, afinal de contas a mãe de minha esposa estava lá dentro daquela sala, no entanto logo alguém informa:

--- É o senhor da cadeira de rodas.

Os maqueiros chegam correndo com as atendentes atrás, junto seguem algumas pessoas de batas verdes, um deles falando em um rádio de comunicação. Entram na sala. Minha esposa comenta:

--- Esta sala só pode ser muito grande para caber um monte de gente desses.

Todos os olhares estão voltados para a sala, quando sai os maqueiros e todos que entraram com ele conduzindo o cadeirante. A porta da sala quatro se fecha novamente e aparentemente tudo volta a normalidade, se não fosse o burburinho ocasionado pelos últimos acontecimentos.

Passados alguns minutos um guarda municipal acompanhado de outros dois, se posiciona na parte central do corredor e fala com uma potente voz, quase gritando:

--- Pessoal, boa tarde!

E recebe um sonoro boa tarde de volta.

--- Pessoal, se vocês não fizerem silêncio, não vão conseguir ouvir quando chamarem vocês. Por isso, peço que fiquem em silêncio, para depois não estarem perguntando se já foram chamados. Obrigado.

O burburinho diminui, e parece aumentar o som da máquina na obra. Comento com minha esposa:

---- Será que esse pessoal não almoça?

Já são mais de duas horas da tarde quando a porta da sala quatro se abre e a atendente chama:

--- Os acompanhantes da dona Maria do Carmo!

Minha esposa se levanta de um pulo e se dirige até a atendente que com as mãos amparava a minha sogra, conversa algo com ela e vem lentamente de braços dados até a cadeira novamente, e já vai me atualizando:

--- A moça avisou que temos que esperar logo pelo laudo.

--- Mas, D. Maria está em jejum até agora! Argumento.

--- Pois é. Você não quer ver se aí por fora não vende uma água de coco?

É exatamente o que faço. Vou até um pequeno quiosque do lado de fora do hospital que vende lanche, e na falta da água de coco, trago um copo de suco de goiaba. Dona Maria bebe de um só gole. Eu e Rosinha, minha esposa, também estamos com fome. Volto a folhear o livro, e o tempo não passa. Nossos olhos continuam postados na sala quatro. Uma senhora que está ao nosso lado compreendendo nossa ansiedade comenta:

--- Isso é muito errado, a senhora deste de manhã sem comer nada, devia entregar esse laudo outro dia.

--- Mas ela disse que tem que esperar! Lamenta Rosinha.

Finalmente a moça sai com duas folhas na mão, da jovem que entrou primeiro e de D. Maria. Eu que já estou em pé corro para pegar o bendito “prêmio”.

--- Vocês agora fiquem sentadas ali fora, que é mais ventilado, que eu vou buscar o carro, disse.

Enquanto me dirijo para buscar o carro vou conversando comigo mesmo, e diante do sofrimento que foi para se fazer um simples exame de endoscopia pelo SUS, lembro-me que eu também não tenho plano de saúde e que sou um potencial cliente do SUS. Faço uma breve oração para que Deus me de muita saúde e pego o carro para buscar minha sogra e minha esposa.