terça-feira, 2 de junho de 2020

MORAL E ÉTICA



O período de aulas ministradas pelo professor Rômulo Cesar na especialização de Filosofia da Educação foram por demais produtivas. Embora os temas: moral e ética sejam vastíssimos foi ainda mais enriquecedor pelo fato de como as aulas foram elaboradas: seguindo cronologicamente o pensamento sobre ética nos diversos períodos da história. Assim, caminha-se e seguem-se os diversos pensadores e seus conceitos sobre o tema. Esse conhecimento adquirido nesses dias e acrescido de algumas outras fontes é o que se busca resumir no texto abaixo.

As primeiras reflexões filosóficas com relação à ética nós encontramos com Sócrates, considerado o “pai” da filosofia. Anteriormente, essa consciência ética era abafada pelo “espírito” do determinismo que havia entre os gregos. Na história mitológica do castigo de Prometeu dado por Zeus ilustra bem esse período como vemos a seguir.

Na Grécia antiga, acreditava-se que toda ordem social era pré-determinado pelo movimento dos astros. Assim todos deveriam aceitar seus destinos e não podiam questioná-los. É justamente neste sentido que surge a mitologia grega quando nos apresenta o determinismo dos deuses ao lermos o castigo dado a Prometeu por Zeus como falei anteriormente pelo fato dele ter se compadecido da situação vivida pelos homens e ter resolvido levar-lhes o fogo (consciência) para que estes pudessem modificar suas sofridas condições.

Isso para Zeus foi uma afronta, já que Prometeu ousava a interferir nos destinos predeterminados. Como castigo por essa ousadia, Zeus impôs-lhe um castigo eterno: seria acorrentado no alto de uma montanha, e ficaria debaixo de um sol escaldante e ali padeceria de fome e sede. E todos os dias um abutre vinha comer-lhe o fígado que lhe causava dores terríveis e que á noite automaticamente se regenerava para que no dia seguinte viesse a sofrer os mesmos flagelos.

Zeus também não perdoou os homens. E também castigou-os enviando Pandora, uma encantadora que enganou os homens com uma caixa que aparentemente teria milhares de coisas maravilhosas, mas, que ao ser aberta tinha somente desgraças, doenças e toda sorte de sofrimento. Essa história mitológica nos faz compreender todo o pensamento determinista que predominava nessa época. Se não havia liberdade para que o homem pudesse modificar o seu destino, também não poderia haver ainda a existência de uma consciência ética.

Já no século V ainda na Grécia antiga, mais precisamente em Atenas onde predominava a democracia, onde havia os debates públicos na ágora, esse pensamento empírico e mítico foi sendo substituído e aos poucos sendo superado por uma ação mais reflexiva e com uma discussão mais voltada a ordem moral e de conotação política. A rigor, os gregos foram os primeiros a racionalizar as relações entre as pessoas, repensando posturas e sistematizando ações.

Neste período se destacam os pensadores gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Logicamente teremos nesse trabalho apenas alguns pontos do pensamento desses homens já que as obras dos mesmos são vastíssimas.

Considerado o Pai da filosofia, Sócrates, só entra em cena com relação ao tema abordado quando houve a necessidade de refutar os Sofistas.  Segundo os Sofistas a ética seria algo totalmente relativo, momentâneo e subjetivo tudo se devia a força da argumentação. No entanto para Sócrates isso não poderia ser uma verdade porque se tudo é relativo até essa defesa dos Sofistas é relativo. Sócrates compreendia que deveria haver algum princípio e para isso ele usa o termo grego “Aleteia” que é a expressão grega para o termo verdade verdadeira, verdade suprema, verdade máxima ou ainda verdade última. Sócrates até acredita que haja outras verdades menores, assim como fazem os Sofistas, mas, o verdadeiro filosofo busca a aleteia, a verdade suprema.

É ainda, a partir do pensamento Socrático que começa haver o dualismo entre a razão e a paixão. Sócrates compreende que se o ser humano é essencialmente racional, ele deve usar dessa razão justamente para controlar, dominar, regulamentar as suas paixões. E é essa razão que deve fazer com que o homem domine as suas paixões e os seus apetites.

Para Sócrates, virtude é sabedoria e conhecimento. Já o vício é o resultado da ignorância. No pensamento de Sócrates o saber fundamental é o saber a respeito do homem. Sobre isso ele haveria dito suas frases mais famosas: “conhece-te a ti mesmo” e “Sei que nada sei”.

Platão é discípulo de Sócrates, Platão tem uma filosofia parecida com a de seu mestre Sócrates, no entanto a diferença é que Platão vai pelo dualismo ontológico. É atribuído a Platão a descoberta da metafísica, cuja as reflexões filosóficas remetem para o mundo das ideias.

Mas, voltado para o campo da ética ele entendia que a Polis é o próprio terreno da vida moral e que a ética necessariamente desembocava na política. Ele reconhecia como “classes superiores” as dos governantes e guerreiros, por suas atividades de contemplação, guerra e política. As “classes inferiores” eram as dos artesãos – devido ao desprezo do pensador pelo trabalho físico – e dos escravos – considerados pela sua sociedade como desprovidos de virtudes morais e de direitos cívicos. A ética de Platão dava-se de acordo com as ideias dominantes, a partir da realidade social e política daquela época.

Platão associava cada parte da alma a uma determinada classe social própria de seu contexto. Segundo ele a razão era própria da classe dos governantes e filósofos, pois a prudência os guiava. Os guerreiros eram guiados pela valentia e entusiasmo, pois defendiam as cidades- estado. A temperança era a característica da camada dos artesãos e comerciantes, motivados pelo apetite e pela moderação. A justiça social era a responsável pela harmonia entre todas as partes da sociedade grega da época.

O pensamento de Aristóteles sobre como o homem poderia viver uma boa vida, afirmava que a felicidade era a finalidade de todo o homem e a plena realização humana era a contemplação do exercício da razão humana. Ele ensinava que tem três formas de se alcançar a felicidade: pela virtude, pela sabedoria e pelo prazer.

O pensamento moral de Aristóteles está exposto em obras como Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e a Grande Ética.

Os epicuristas caminham nesse mesmo sentido, que a imperturbabilidade da alma era a finalidade da ética. Havia para isso alguns princípios a seguir como: não temer a morte, pode-se suportar a dor e que a felicidade pode ser alcançada. Defendiam ainda que o bem fundamental é o prazer, mas não no sentido sexual e sim o prazer da amizade. Entendiam que para ser feliz, o indivíduo deveria se afastar de tufo que é mal, negando tudo aquilo que lhe causasse dor e sofrimento e, contrariamente se aproximar do bem, praticando tudo aquilo que lhe propicia alegria ao espírito.

Já os Estoicos combatendo os Epicuristas, construíram uma teoria ascética. compreendiam a ética como algo de autocontrole individual compreendendo que tudo o que acontece faz parte do um plano de uma razão universal. Um destino. Proclamavam que a atitude mais sábia era aceitar essa verdade, não se revoltando contra a sua condição social. A compreensão disso traria como consequência a imperturbabilidade da alma.

A ética medieval era compreendida que tudo estava determinado pela vontade de Deus, inclusive o papel social de cada um. Nesse período a Igreja Católica tomou para si o papel ideológico de pensar por todos os homens, apontando, segundo leis reveladas por Deus, o que era o bem, o mal, o justo, o pecado...

Totalmente contrário ao pensamento da Grécia antiga onde o homem tinha que viver em função da comunidade que para os gregos era a polis ou em relação ao cosmos, na Idade Média o homem tinha que viver antes de tudo em função de Deus.

Ao chegarmos na modernidade a partir do século XVIII com o advento do iluminismo diversos pensadores começaram a combater o pensamento até então prevalecente na idade média. Compreendiam eles que o pensamento místico e supersticioso da Idade Média, se contrapunha ao racionalismo. Separando-se da religião, a moral iluminista tornou-se laica.

Para Immanuel Kant, a consciência moral só atingiria seu sentido pleno, regida por um imperativo categórico. Kant entendia que o homem sempre tenderia naturalmente para o egoísmo, por isso só o dever seria capaz de torná-lo um ser moral. Entendia ainda ele que só atingimos a consciência de estarmos nos comportando guiados por uma lei moral quando agimos livremente. E só alcançamos a liberdade quando seguimos a nossa razão.

Para Karl Max uma sociedade que é dividida em classes, as ideias predominantes serão sempre das classes dominantes. Max compreendia que nas classes capitalistas, os burgueses, detentores dos meios de produção fundamentais, dominam também a produção das ideias e dos valores. Os códigos de moralidade que aqui se constroem correspondem as suas ideias hegemônicas.

Max compreende que só na superação da sociedade de classes, no fim da exploração do homem pelo homem, pondo fim a alienação do trabalho, é que poderá surgir uma moral realmente autêntica, baseada no princípio da igualdade e na fraternidade humana.

O homem da atualidade tem diante de si diversos desafios. Dominado pela mídia, tornou-se consumista e pragmático, caindo num vazio interior e num individualismo exacerbado. Seu egoísmo é tamanho que tem dificuldade de conjugar o nós desde que seja centrada no eu.

O desafio atual é repensar o seu modo de ser, propondo uma nova ética e uma nova sociabilidade.